Gravadora: Ghetto Youths/Tuff Gong/Universal Republic

Dos filhos de Bob Marley, Ziggy é o mais conhecido por ser o primeiro deles a despontar em uma carreira solo; Damian é o mais pop, por criar um diálogo do reggae com elementos da música universal; e Stephen é o rato de estúdio, que estuda e observa quais os melhores arranjos para deixar o reggae ainda mais palatável ao público. Todos vêm colhendo ótimos frutos ultimamente, e um fator poderoso é a união deles.

Damian Marley gravou no ano passado um álbum inteiro com o rapper Nas, trazendo um ar globalizado ao reggae em temas relativos à África. Aliás, o projeto que resultou em Distant Relatives também tinha como finalidade destinar fundos a instituições de erradicação de analfabetismo. Stephen Marley cantou, produziu boa parte das faixas deste disco e, motivado, decidiu ele próprio deixar um registro com um compromisso musical ainda maior que o irmão: a intenção era buscar raízes africanas próximas do reggae, mas com requintes modernos como só ele sabe como temperar. Tanto é que, logo na primeira faixa, “Made In Africa”, ele traz como acompanhamento alguns dos músicos que tocaram no espetáculo Fela!.

Revelation Part 1: The Roots of Life é o primeiro capítulo de um encontro de Stephen com a pureza do ritmo universalizado por seu pai. Essas raízes, talvez, estejam um pouco mais distantes, já que se vão mais de 40 anos que o reggae saiu da Jamaica para o mundo. Todavia, pouca coisa mudou, a começar pelas temáticas. Stephen continua ovacionando os líderes de outrora em “Selassie Is the Chapel”, com seu irmão Ziggy, e “Can’t Keep I Down”.

Nessa procura de resgate, não espere nenhuma manifestação mais evidente de ritmos africanos, como afro-beat ou yorubá. Algumas linhas prevalecem, mas há tantos elementos pop, que transfigurariam tudo. Talvez Stephen tenha extraído muita coisa que produtores renomados como Rick Rubin ou Kanye West tenham feito nos últimos anos: tem até um pouco de autotune em “Jah Army”, com Damian cantando. Esta canção evoca os belos tempos do jungle, com efeitos de um dub mais quebrado por cima. Roots!

Em muitos momentos Stephen também faz jus a obra de seu pai, seja dialogando com o clássico “Who the Cap Fit” em “False Friends”, pela temática e arranjos um pouco similares, ou trazendo sua versão para “How Many Times” em “Pale Moon Light”, dos tempos de Bob Marley jovem, quando o reconhecimento universal era uma possibilidade remotíssima.

“Jah Army” (ft. Damian Marley)

“Pale Moon Light (How Many Times)”

Conforme o disco avança, parece que Stephen soa mais nostálgico. Em uma das últimas canções, “Working Days”, ele faz um diálogo muito bonito do reggae e dancehall com o jazz, com uma pequena ajuda do DJ Spragga Benz. Em “Now I Know”, a última faixa, Stephen pega seu violão acústico e faz uma espécie de reflexão do aprendizado que o próprio disco deu a ele nessa empreitada.

Ainda neste ano, Stephen pretende lançar a continuação deste disco, que será intitulada de Revelation Part 2: The Fruit of Life. Está em um bom caminho.

Melhores Faixas: “Made in Africa”, “Jah Army”, “Pale Moon Light (How Many Times)”, “Working Days”.