Gravadora: Loma Vista
Data de Lançamento: 24 de fevereiro de 2014
St. Vincent é a artista que convém chamar de atual representante do art-rock.
Da produção excêntrica de seus discos ao seu estilo todo… hum… excêntrico, Annie Clark identifica-se tanto com o espalhafatoso a que o pop se transfigurou nos últimos 10 anos, como ao som de garagem fétido e visceral de mais de quatro décadas atrás. Noutras palavras, na ponte que liga o obscurantismo de The Velvet Underground & Nico (1967) ao último disco de Lady Gaga, habita a música de St. Vincent.
Poderia ser algo ruim, já que estamos se tratando de níveis conectados por extremos, ainda que sejam diferentes.
St. Vincent traz o extremo em sua nova obra autointitulada, mas com um peso maior: o peso de quem não precisar ligar nomes à sua carreira musical (mesmo depois de trabalhar em um disco completo com David Byrne).
Comprove isso da forma mais enigmática possível em “Prince Johnny”. Em uma das poucas baladas do disco, Annie tenta ligar Johnny à realidade, repassando uma lição que a vida artística lhe ensinou: ‘Por ora eu acho que sei a diferença/Você quer ser o filho de alguém’. Ela quer que o personagem se atente à realidade para ser ‘um garoto verdadeiro’, seja qual for a figura de linguagem aqui embutida.
“I Prefer You Love”, por outro lado, é bem direta: a cantora se entrega à mãe, revelando medo e insegurança de perder a maior dos entes familiares. Ela parece se despir, mas o ouvinte ainda percebe alguma reserva pessoal. Quiçá seja a opção pela tranquilidade que intrigue. É a insegurança – talvez tivesse um significado de raiva, com adição brusca de guitarras, se Clark perdesse sua mãe, algo que felizmente não aconteceu após a cantora revelar que ela ficou doente durante as gravações do disco.
Agora, se você não procura nenhuma conexão em St. Vincent, seja artística ou pessoal, não há com o que se preocupar: rocks potenciais são entregues logo na sequência de “Rattlesnake” e “Birth in Reverse”, com riffs instigantes e letras cantaroláveis, para ouvir alto. “Regret” completa a tríade roqueira, onde os metais escondidos de Ralph Carney a tornam um tantinho mais híbrida.
As incursões experimentais de Annie também não poderiam ficar de fora. Se “Digital Witness” mostrou que a artista aprendeu bem a lição após Love This Giant (2012), “Bring Me Your Loves” tem nos teclados de Adam Pickrell o ar novidadeiro adequado para se encaixar em qualquer definição de pop torto. É rock e eletrônico em medidas desmesuradas, se convergindo para um senso de superficialidade de quem diz ‘Eu achei que você fosse como um cachorro/Mas você fez um pet de mim’.
Das muitas facetas artísticas que vemos Annie despir, a mais improvável é a que a aproxima da soul music. “Digital Witness” é bem-sucedido nessa empreitada, mas é a retrô “Severed Crossed Finger”, inspirada pela novelista Lorrie Moore, em que vemos Clark melhor expor conflitos sentimentais. É a faixa mais doída do disco. Não por acaso, é a que encerra St. Vincent, com a ousadia de utilizar termos complicados para definir um amor mal correspondido.
Por mais que gostemos de mencionar o rock com os trejeitos mais simples e diretos, o complexo proposto por St. Vincent adquire melhor projeção quando o situamos no espectro artístico e único da cantora. Não há fórmula, nem um caminho que foi seguido. St. Vincent é Annie Clark mostrando que sua contribuição artística independe de contemporâneos e gêneros fechados.
