Gravadora: Loma Vista/Concord
Data de Lançamento: 13 de outubro de 2017
Avaliação: 9/10
MASSEDUCTION, 6º álbum de St. Vincent, é um disco que relativiza polos emocionais.
Desde que começou a promoção do disco, Annie Clark disse que este seria o mais próximo que ela chegaria à sua individualidade.
Se assim for, então trata-se de um ser impenetrável, mas que não relega seu lado demasiado humano.
Para isso, ela já nos entrega um ponto negativo: ansiedade. Em “Hang On Me”, ela diz que precisa mudar, mas não sabemos se Annie está abrindo seu livro de emoções ou baseando-se em um personagem ficcional típico da sociedade de consumo: ‘Sei que você odeia minhas histerias/Prometo que desta vez será diferente’, diz ela na canção, toda tomada por sussurros.
Na faixa-título, a personificação é clara. Ao dizer ‘não posso desligar aquilo que me excita’, faz menção ao comportamento oculto das massas. Os mesmos que adoram defender a moral e os bons costumes são, supostamente, os mesmos que subvertem essa moral longe dos outros. Portanto, as imagens ‘sagradas’ de ‘virgens cristãs’ escondem um lado profano mais forte do que se imagina.
A dubiedade da faixa-título foi espertamente trazida para a sonoridade: seu rock saturado alterna entre o límpido e o destrutivo, sugerindo um ambiente político-filosófico que propõe uma continuação à jornada distópica do álbum anterior, St. Vincent (2014).
Annie Clark tenta, na medida do possível, estabelecer essa proximidade com o ouvinte. Em “Sugarboy”, um synth-pop à lá Eurythmics, ela reforça: ‘Sou muito como vocês’ – seja garoto ou garota.
“Pills”, no entanto, mostra que o ‘ser como você’ não é bem um indício de normalidade. Em entrevista à Pitchfork, Annie confessou que tomava remédios para controlar a ansiedade e conseguir dormir. O refrão, entoado pela ex-namorada Cara Delevingne, enumera a grande quantidade de remédios para lidar com as coisas do cotidiano, tal qual um jingle propagandístico. Na virada da canção, é como se Annie estivesse em um devaneio, sofrendo os efeitos psicotrópicos. A produção adquire um ar flutuante, conduzindo a uma longa viagem a bordo do solo de sax-alto de Kamasi Washington.
Em busca de oferecer algum tipo de conforto à personagem de “Pills”, em “Young Lover” o sujeito, que aparenta ser um careta, propõe um antídoto da forma mais ingênua possível: ‘Queria eu ser a sua droga’.
Perdas e afastamento
Quando se trata de relações a dois, Annie não oculta o teor de afastamento já intrínseco à toda sua obra. “Los Ageless” indica que isso pode ser influência do ambiente externo. Num jogo de palavras com a cidade norte-americana de Los Angeles, ela diz que as construções solapam o indivíduo, até onde ‘não ter para onde escapar’.
Na parte final da canção, ela adquire um tom confessional sobre a dificuldade de lidar com a perda de alguém querido.
Em “New York”, lidar com essa perda parece ser mais triste e doloroso. Por mais que ela tente seguir o rumo ‘normal’ das coisas – como o vídeo dirigido por Alex Da Corte dá a entender – a perda engloba uma série de coisas. Quando ela diz que ‘perdeu um herói’, isso se aplica aos vários colegas músicos que faleceram recentemente, como os ídolos Leonard Cohen, Prince e David Bowie, com quem tinha maior proximidade.
Esse clima soturno é retomado em “Slow Disco” que, inclusive, sugere uma continuação da amostra desse sentimento de perda. Nela, a falta de contato faz com que o antigo parceiro torne-se um fantasma, numa dança lenta tida como um rito para o fim do relacionamento.
Fé
Um dos assuntos que poucos associariam à St. Vincent ganha pinceladas interessantes em MASSEDUCTION. Trata-se da fé.
Em “Fear the Future” ela chega a produzir um tipo de som gospel, com a ajuda do tio dela, Tuck Andress, guitarrista do projeto Tuck & Patti. A canção é nevrálgica, direta, algo impensável para quem trabalha analogias como parte de uma performance idiossincrática (vide Actor e Strange Mercy, por exemplo). Ao contrário do típico afastamento, ela roga ao Senhor. Mas,no meio disso tudo, ela não abandona a dubiedade: no som, um shoegaze com gospel; na música, bom, quem é esse Senhor? Pode não ser teu deus…
Mas, de uma coisa pode-se ter certeza: Annie Clark tem fé no amor. Pelo menos é isso que ela canta em “Let it Happen”. A produção de Jack Antonoff, famoso por trabalhar com Lorde, Taylor Swift, entre outros, é mais sintomática, porque ele deixa a sonoridade minimalista para que as emoções de Annie soem mais sinceras. Só aí, temos mais uma dubiedade: o sentimento surge como contrapartida à plasticidade de todo o projeto visual de “New York” e “Los Ageless”. ‘Não é o fim/Não é o fim’, repete a cantora.
