Gravadora: Columbia
Data de Lançamento: 1º de março de 2019
Avaliação: 8/10

Solange estimula o ouvinte a abstrair em seu novo disco. Chame de R&B etéreo, soul imaginativo, enfim, a ideia é fazer com que o ouvinte flutue em melodias, ideias e suspiros.

When I Get Home consegue, como poucos discos, transmitir uma sensação da forma menos eloquente possível.

A beleza das harmonias gera paz. Suas repetições enfatizam segurança. E as variações musicais formam o pulsar de corpos que se completam ao chegar a algum lugar, encontrar uma pessoa ou simplesmente tomar uma microdecisão.

Mais calmo e mais profundo

Parece anacrônico que Solange, feminista e culturalmente ativa na luta contra o racismo nos Estados Unidos, entregue um disco tão confortante como When I Get Home. Que dá vontade de esboçar um risinho tímido, que lembra dos momentos mais simples ao lado de quem amamos, que gera uma vontade inexplicável de se conectar com o mundo.

Antes de tudo, o álbum atende à demanda de apressadinhos que não aguentam ouvir mais de 30 minutos de um artista: os temas (vamos dizer assim) são curtos, às vezes pequenos insights que não precisam se estender para formar uma ideia.

As músicas mais estruturadas no formato canção, como “Way to the Show” e “Stay Flo”, têm forte atrativo de identificação, seja pelo estímulo à própria capacidade de fazer as coisas acontecerem ou de lidar tranquilamente com a rotina de trabalhar.

Ou mesmo “Dreams”, em que Solange pausa em um momento enquanto garotinha que sempre foi sonhadora. Nesse estado de transe, o atraso melódico da percussão transporta o ouvinte para este passado nostálgico da cantora. Essa experiência sonora transcende o desencadeamento de frases: pouco importa que ela entre em modo repeat. Tem-se, aí, um exercício cíclico de valorizar as boas lembranças do passado.

Quieto simbolismo

De cara, When I Get Home associa-se à ideia de busca individual. As entradas de Gucci Mane, em “My Skin My Logo”, ou Playboi Carti, em “Almeda”, geram um impacto transferível ao próximo.

A transição de um tom mais preguiçoso para algo sedutor é extremamente sutil. Fica mais perceptível com o crescendo das batidas, em que uma leve entonação vocal soa mais efetiva do que o superestimado esforço que, no pop, convencionou-se chamar de catarse.

Renovar a linguagem musical não foi algo assim tão complicado para Solange. Fazer com que ritmo, melodia e canto soem como algo uníssono é uma das joias ocultas de A Seat at the Table (2016). Naquele momento, porém, o poder de fala não podia ser desperdiçado. Em When I Get Home, porém, é o simbolismo que se empodera na entrega de um som bonito, puro e sincero.

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Confira um vídeo com as 10 grandes cantoras que são promessas do R&B. Solange está entre elas…

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