Gravadora: Doggystyle/I Am Other/Columbia
Data de Lançamento: 12 de maio de 2015

Ter Stevie Wonder colaborando em uma canção de seu disco poderia ser considerado privilégio, mas, peraí, estamos falando de Snoop Dogg, muito provavelmente o rapper mais arroz-de-festa de todos os tempos, o estiloso e adorado músico que canta com personalidades que vão de Iggy Azalea a Q-Tip.

BUSH marca o retorno de Snoop ao pop, depois de uma polêmica passagem na cultura rastafári com o Snoop Lion que, de interessante mesmo, só trouxe as provocações de Bunny Wailer.

Snoop Dogg foi o rapper que melhor estabeleceu a força de um refrão na comunidade hip hop. Se hoje ele se tornou refém disso, podemos encarar como processo natural

Pharrell Williams está na produção, e isso significa a dominação de uma vertente R&B pompom, que lamentavelmente conecta canções como “Awake” e “Edibles” ao que músicos como Robin Thicke e Justin Timberlake considerariam achados imperdíveis em seus discos.

Teria que haver mais controle por parte de Snoop para que BUSH conquistasse um mínimo de legitimidade.

“California Roll”, que abre o disco, é uma das poucas dignas de elogio: a harmônica de Stevie supostamente vence no embate contra as interjeições manjadas de Pharrell. E Snoop Dogg? Surge apenas com poucas rimas, como se estivesse ali, jogado, ou como se fosse mero coadjuvante na obra que deveria selar sua marca pessoal.

Isso não quer dizer que a característica do rapper esteja apagada. Snoop Dogg foi o rapper que melhor estabeleceu a força de um refrão na comunidade hip hop. Se hoje ele se tornou refém disso, podemos encarar como o processo natural de um artista que quer permanecer nos holofotes.

Nas canções em que canta sozinho, como “This City” e “R U A Freak”, cada verso é valorizado. Se em Doggystyle (1993) imaginaríamos um alarmante Dr. Dre sugerindo intensidade, em BUSH Pharrell e Snoop colocam mais leveza, mais swing, mais appeal. Inclusive, esse é o acordo preponderante no single “So Many Pros”. A sensual “Run Away”, com participação de Gwen Stefani, também tem potencial para agradar os mais afeitos ao lado R&B-pastiche de Doggy.

Há pouco de rap mesmo em BUSH. E não espere que a última canção do disco, “I’m Ya Dogg”, venha satisfazer esses carentes. Kendrick Lamar e Rick Ross, candidatos a disputarem a maratona de quem mais acumula participações na carreira, surgem fininhos, fininhos, alinhando suas notáveis rimas em batidas mornamente programadas. Espera-se algo que rompa tal barreira, e isso não acontece.

Em BUSH, Snoop determina um controle que muito provavelmente não estabeleceu.