Gravadora: YB Music
Data de Lançamento: 13 de maio de 2015

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Mesmo sem a Fuloresta ao seu lado, Siba é um músico que compõe como se fosse uma orquestra. No antecessor Avante (2012), ele complexificou os arranjos de cordas não apenas para preencher a sonoridade ‘frevo-da-mata’ do antigo grupo em que era líder, mas para enfatizar sua habilidade de escrever como um cordelista urbano. Essa estética foi burilada e levada ao extremo no intenso Violas de Bronze (2009), ao lado do violeiro Roberto Corrêa.

Claro, sai a rabeca de cena e entra o violão e a guitarra, instrumentos típicos da música pop. Porque, a despeito do regionalismo que conduz o andamento rítmico, em Avante Siba fez música pop. E em De Baile Solto, por contravenção, retorna ao som da mata, com algo novo na bagagem: uma atenção mais dedicada às construções harmônicas.

Siba é um dos melhores compositores da atualidade porque entende como poucos a tradição da música pernambucana e, por outro lado, o contexto em que ele, como cidadão, está envolvido

Isso é latente mesmo em suas composições focadas na letra. “Marcha Macia”, que ironiza com um ‘viva às instituições‘, tem trombone, percussões e um som carnavalesco, mas atente-se ao delinear de cordas de Siba. Elas têm tanto a dizer quanto o significado das canção – que, por outro lado, suscita uma análise arguta sobre diferentes tipos de manifestações: ‘Progrediremos juntos muito em paz/Sempre esperando na fila dos normais‘. E diz mais: ‘Que bom fazer parte/Da maquinaria‘. (Neste caso, Siba se referiu ao Ocupe Estelita, que quer impedir que a Prefeitura do Recife (PE) construa edifícios numa área histórica da cidade.)

“Marcha Macia” menciona a dicotomia de interesses nessas passeatas, de dúbios propósitos. A ‘ponta de lança‘ ou ‘estrondo‘ que o músico menciona remete ao único denominador comum que mobiliza tanta gente: cansaço. Do quê, ainda não se sabe – e, por mais que Siba não se preocupe em apontar a resposta dessa difícil pergunta, capta como poucos as entrelinhas dessa movimentação: ‘A nova ordem tomou conta da cidade/É bom pensar em dar no pé quem não se agrade/Sendo você eu me acomodaria’.

A profundidade da primeira canção de De Baile Solto é apenas um interlúdio da invejável habilidade de Siba: ele é um dos melhores compositores da atualidade porque entende como poucos a tradição da música pernambucana e, por outro lado, o contexto em que ele, como cidadão, está envolvido. “O ponto central pra mim é conseguir me manter criativo, ativo. Manter uma certa sensibilidade de urgência a cada momento novo”, disse o músico em entrevista ao Noisey.

A posição de Siba é muito bem colocada em “O Inimigo Dorme”, uma das faixas mais emblemáticas do disco: ‘Também podemos sonhar/(…)Se encolhermos até ser/Possíveis de esmagar/Tá sujeito de escapar/Sem fugir/E já que nada temos/Só carregaremos/Peso que ajude a subir’.

As estrofes e a instrumentação das músicas de Siba obedecem um jogo complexo de justaposição dos solos de guitarra (que, vez ou outra, substituem parte do arremedo híbrido da música pernambucana). “Três Desenhos” é um dos melhores exemplos: o vibrafone de Antônio Loureiro e os riffs de sua guitarra habitam um cenário em que as pinceladas são pungentes como agulhas e subjetivas como pontilhados.

A balada “Três Carmelitas” tem um quê de lamento sertanejo na construção do fraseado. Mas vem, então, a forma com que Siba canta. Simplesmente divagante, economiza nos versos e nos enriquece com as imagens que nos remete a um casarão familiar, de ancestrais que gostaríamos de conhecer. ‘Flutuar suspende as dores/E sonhar reacende as cores‘, filosofa.

“Quem e Ninguém” e “A Jarra Arranha a Aranha” são de forte ressonância popular. Festivas, mas não furtivas: de um lado, uma canção para colocar no pé de igualdade de “A Cidade”, de Chico Science; de outro, trocadilhos típicos da literatura de cordel que vêm hereditariamente de Toda Vez que Dou um Passo o Mundo Sai do Lugar (2008).

Não se pode eximir o significado de música de rua da faixa-título, um baque virado que distorce frevo e congada, ajeitando estrondos de uma guitarra distorcida. São elementos que persistem em se convergir mas, lapidados por Siba, conectam cenários distintos a partir de desejos mundanos, quase utópicos, mas musicalmente possíveis.