Gravadora: 4AD
Data de Lançamento: 20 de outubro de 2014
Scott Walker impressiona porque, aos afeitos à sua obra, é obvio. Por mais que suas climatizações musicais sejam obscuras, sintetizam buscas estéticas favoráveis ao seu poderoso barítono. Claro, os anos 1960 provaram que sua voz seria aceita no pop, no barroco ou no rock. A partir dos anos 1980, seu alcance seria muito maior no quesito musical; mesmo os ouvidos mais operísticos seriam impactados.
Óbvio, também, é que o Sunn O))) seja a melhor banda a proporcionar o maquinamento musical necessário à Scott. Ainda que o cantor se beneficie das técnicas de estúdio, de seu invejável repertório de assimilações musicais e dos muitos aparatos que criou para gerar sonoridades não usuais, renasce a esperança: bem que a colaboração poderia levar Scott novamente aos palcos, não?
Soused é um disco absolutamente provável tanto para quem se aventura na obra de Scott, como de Sunn O))) – contando com a premissa dessas semelhantes tribos entenderem a dimensão do fator impacto em seus respectivos trabalhos.
É de se argumentar que uma banda possua limitações, mas isso é inconcebível quando trata-se de Scott. Felizmente o Sunn O))) está a quilômetros de distância de qualquer barreira técnica. Basta a primeira faixa, “Brando”, para comprovar. De batidas de chicote aos sons do que parece ser uma selva ocultista, Scott está munido da sinistra ambiência para suas estranhas recitações.
O terreno explorado em Soused é mais semelhante a Bish Bosch (2012) que ao Monoliths and Dimensions (2009), disco do Sunn O))) que Scott foi convidado a participar, mas não pode.
Tudo bem que “Herod 2014” possua resquícios de Tilt (1995), mas em poucos minutos eles transferem o ouvinte à obscura atmosfera de Bish Bosch. Sob drones e espaços vazios, a voz de Scott ecoa como se fosse a última pessoa a habitar o planeta Terra.
As novidades de Soused estão contidas nas timbragens, em pequenos detalhes sórdidos. O aspecto arrebatador da obra de Scott e Sunn O))) não só permanecem, como são enfatizados. “Herod 2014” reserva tal momento da forma mais abrupta possível. Em “Fetish”, porém, a alternância sonora em continuum deixa o ouvinte atônito para a golpeada: ‘Mate mate mama/Como você usa a fechadura‘, compõe um dos enigmas da faixa, não sem a voz temerosa do cantor. Então, tudo para. A música está nos segundos finais, até que Scott faz o último pronunciamento e nossas percepções permanecem atentas. Não, ele não nos assustou – inadvertidamente, nos transfere a outro ambiente isolado, mantido por um compasso agonizante.
“Lullaby” é parte de mais uma sessão de tortura. Aí, sim, as guitarras e os altos barulhos de sintetizadores capturam o ouvinte como a mais temível das feras selvagens. Talvez seja a mais marcante faixa de Soused, mas parece que parte de sua eficácia seria melhor percebida se ela fosse a primeira ou segunda faixa – e não a última. Isso, claro, demonstra que o modus operandi do avant-garde dessa colaboração surpreende em quase todos os sentidos. Não ficaria surpreso se visse alguma faixa deste álbum num filme de Lars Von Trier.
Scott Walker é mero cronista. Não testemunha, tampouco induz. Destaca-se como o porta-voz de uma obra fragmentada que pode até não ter significado para alguns. Seja quem ouça Soused, uma coisa é certa: o senso de perplexidade é remexido, independente de ser conhecedor ou não de Scott ou Sunn O))), entusiasta ou mero transeunte.
