Gravadora: Independente

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Vamos esquecer o afro-beat por um tempo. Não vamos mais caçar motivos para fazer Fela tremer o túmulo (por mais que trema de felicidade ou de tanto dançar com as coisas boas que estão vindo). Faremos o seguinte: deixa pra lá. Fela é Fela, Brasil é Brasil, eu sou eu e Thiago França é Thiago França. Foi em busca dessa última afirmação que um dos tenores que mais trabalham na música brasileira atual lançou o primeiro disco com o projeto Sambanzo, que segue como uma continuação do álbum Na Gafieira, de 2009 (assinado como Thiago França mesmo).

01 O Sino da Igrejinha 02 Xangô 03 Tilanguero 04 Capadócia 05 Xangô da Capadócia 06 Etiópia

07 Risca-Faca

Etiópia é um país que fica na África, mas Selassie I nem vem à cabeça. É mais fácil identificar “Capadócia” ou “O Sino da Igrejinha” como algo da senzala nacional, de bruta resistência que ergue para se sobreviver, do que remetê-lo para além-mar. Thiago quis mostrar um pouco do ambiente candomblé, de sua proximidade com o terreiro. Agora, a forma como isso vai soar em nossos ouvidos, ele nem se compromete a arriscar. (Para entender melhor o projeto, recomendo a entrevista do Sambanzo ao Metrópolis, da TV Cultura.)

A imponência de seu instrumento enfatiza a consolidação do ritmo negro de nossa música. Ele vai pisando firme, mas com liberdade. Ainda que o chão seja um paralelepípedo resistente, a marca fica. E isso passa para os músicos que tocam com ele. Dá impressão de que a guitarra bem marcante de Kiko Dinucci é atropelada pelo firmamento dos solos de sax em “Xangô”, uma trilha que, de tanta potência que tem, serviria como hino dos momentos mais frenéticos de um ritual religioso. Ao mesmo tempo – já que estamos vivenciando o ‘boom’ tecnológico – fica tão bem como meu toque de chamadas no celular…

Thiago França busca conforto (não sei explicar como!) na música de cabaré (“Tilanguero”), nos forrós que agitam as esquinas periféricas (“Risca-Faca”) e nos mares do Caribe (“Etiópia”) para formar a pluralidade do Sambanzo, só para citar poucos exemplos.

Toda essa coisa de agressividade versus passeio, rock versus samba, festa na gafieira versus marginalidade e outras improbabilidades estão conectadas. Isso não apenas no som do Sambanzo. Perceba a história da música brasileira e você descobrirá que junções estéticas não comprometem a autenticidade. Como diria Gilberto Freyre, muito pelo contrário: os choques formam o autêntico. Essa é a cultura da mestiçagem, e essa é a tradição da nossa música.

Etiópia tem tudo, mas não dilui nada. É tão ímpar como a nossa cor parda. É tudo fruto de misturas: tem o Curtis Mayfield de Rodrigo Campos (que ajudou a produzir), uma espécie de Robert Johnson ‘anos 2000’ exaltado na guitarra de Dinucci, o groove de Marcelo Cabral que foge e, ao mesmo tempo, conversa. E tem também as batidas afro de Pimpa (bateria) e Samba Sam (percussão).

Essas infinitas referências estão espalhadas em todos os lugares. Não há nenhum apanhado. Mas não consigo pensar em um disco como Etiópia sendo feito por um outro músico que não fosse brasileiro. E nem outro que seja esteticamente comparável – mesmo sendo daqui.

A seguir, ouça Etiópia na íntegra: