
Gravadora: Nonesuch




Mais de 40 anos de atividade como músico e o reconhecimento como um dos maiores guitarristas de todos os tempos já dão uma prévia do que se deve esperar de um novo trabalho de Ry Cooder. Adicione a isso o fato de Cooder ter apreço por canções folk de protesto, além de ter uma veia blueseira: ele faz uma ponte bem estruturada entre Woody Goothrie e Robert Johnson, com um compromisso muito maior com as raízes musicais do que inovações estéticas.
Justamente esse compromisso musical pode se tornar crucial para que alguns possíveis ouvintes mantenham a distância. Se você for ouvir este disco ou o músico pela primeira vez, poderá comentar: cadê sua habilidade visceral nas guitarras? Deve ser por que, em seu 15º álbum de estúdio, Pull Up Some Dust and Sit Down, Ry Cooder explora o blues, country, folk e a música texana como se os gêneros estivessem entrelaçados entre si em prol de algo maior: a consistência.
Na faixa de abertura, “No Banker Left Behind”, Ry Cooder soa sarcástico ao falar da exploração dos donos do dinheiro como se fossem arruaceiros. Ao som de mandolins e violões, Cooder dá atualidade à estética folk já explorada há muitas décadas atrás, sem se tornar antiquado ou revivalista. A novidade fica pela interação entre esses instrumentos crus, acompanhados pela voz trovadora de Ry Cooder que, apesar de não impactar a ponto de se tornar referencial, se encaixa muito bem em suas propostas musicais.
“No Banker Left Behind”
Importante frisar também que o ritmo de andamento do álbum Pull Up Some Dust é bem sincrético: entram momentos folclóricos de Tex-Mex em “Quick Sand”, canção que Ry Cooder aborda a relação de um imigrante ilegal com as autoridades; vai para o reggae com referências blueseiras em “Humpty Dumpty World”, sempre respirando aqueles ares de country norte-americano; abusa do folk na também irônica “Christmas Time This Year”, falando de armas e um sentido abstrato de proteção para garantir segurança aos seus familiares no final do ano.
“I Want My Crown” mostra Ry Cooder com vocais diabólicos, enquanto executa riffs slides em meio a pontuações blueseiras que interligam Howlin’ Wolf e Captain Beefheart em seus momentos mais intrépidos. As raízes blueseiras são muito bem respeitadas em “John Lee Hooker for President”, principalmente no quesito irreverência criativa. Aqui, Cooder imagina Lee Hooker preocupado com o bem-estar de seus compatriotas de uma forma pouco convencional: “Todos pegam um bourbon, um scotch, uma cerveja; três vezes por dia, se ficar legal”.
Pull Up Some Dust and Sit Down pode não ter um apelo jovem, mas só ficará no limbo se você quiser ignorar a solidez de uma obra inteligente, muito bem solidificada e musicalmente interessante. E você, provavelmente, fará uma nova avaliação sobre a atualidade do folk e do blues. Acha que vale a tentativa?
“I Want My Crown”
“John Lee Hooker for President”
Melhores Faixas: “Quick Sand”, “Humpty Dumpty World”, “I Want My Crown”, “John Lee Hooker for President”.
