Gravadora: Mass Appeal
Data de Lançamento: 27 de outubro de 2014

Download gratuito pelo site oficial

Não tem nem dois anos que Killer Mike e El-P se reuniuram pela primeira vez como Run the Jewels e já provocaram questionamentos outrora tidos como axiomas: será que duplas como Snoop Dogg e Dr. Dre, Big Boi e Andre 3000, Jay-Z e Kanye West estão longe de serem superadas?

Sem o desnecessário panteão imaginário que se fez sobre tais duplas, o Run the Jewels projetou um marketing próprio que muito revela sua característica musical: lançou os dois discos para download gratuito. Em RTJ2, especialmente, deram a possibilidade de fomentar via crowdfunding edições escrachadas que incluem remix com miados de gatos (sim, eles conseguiram!) e aloprar “qualquer um que tenha te injustiçado por meio de séries humilhantes e táticas viciosas” com rimas improvisadas.

Noutras palavras, Run the Jewels é um foda-se bem dado a majors como Def Jam, que sustenta o mercado hip hop tal qual um monopólio. Tanto Killer Mike como El-P chegaram onde chegaram sem o apoio direto da gravadora de Rick Rubin; o primeiro teve ascensão após participar de uma faixa de Speakerboxxx/The Love Below (2003) – até hoje o disco mais vendido do Outkast – e depois foi conquistando audiência aos poucos com seus discos; El-P iniciou nos anos 1990 com o grupo independente Company Flow, onde desenvolveu bastante técnicas de produção. Após três discos, arriscou carreira solo.

Dizer que não conhece hoje o trabalho do Run the Jewels é praticamente um desperdício. Com irreverência, bom humor, boas sacadas criativas, discos diretos ao ponto e simbiose estarrecedora, Killer Mike e El-P formam atualmente a dupla inatingível do hip hop atual.

Tal indício já era apontado no ótimo Run the Jewels. A RTJ2 cabe o papel de demarcar um território vago desde antes de Watch the Throne (2011): Kanye e Jay dizem estar no topo porque tentam convencer o ouvinte com uma proposta musical hedonista; Killer Mike e El-P têm rimas políticas que atacam de modelos magricelas ao estilo de vida em Nova York na bombástica “Close Your Eyes (And Count to Fuck)” e zoam os rappers com jogos intrincados de rima – como se vê em “Blockbuster Night Part 1”.

O appeal do duo é suficientemente gigante para sustentar um álbum inteiro. Nada de interlúdios, falações, agradecimentos, nada disso. São pouco mais de 30 minutos de muita pancada na orelha: na massiva “Oh My Darling Don’t Cry”, remontam à agressividade de Ice Cube com a matadora assertiva: ‘eu rimo e fodo!’; “All My Life” cita Don Draper, do seriado Mad Men, a morte de Paul McCartney e hobbits como fantasias de uma vida curta; e “Angel Duster” habita na esfera de RAP Music (2012), o mais conhecido disco de Killer Mike, e encerra ‘com um aceno para os mestres’ sem abandonar as pinceladas críticas contra Igreja, Estado e a sociedade.

Agora, quanto às participações… Claro, a primeira a se destacar é Zack de La Rocha, em “Close Your Eyes (And Count to Fuck)”. O ex-vocalista do Rage Against the Machine, que raramente aparece em faixas de outros artistas, impacta logo pelo refrão. A mais marcante faixa de RTJ2 é uma bomba alarmante, que parece ter vindo dos resquícios de The Battle of Los Angeles (1999). É devastadora, pede volume máximo. Sai fumaça e exige urros humanos.

A participação de BOOTS no refrão de “Early” coloca o R&B num carro de Velozes e Furiosos. A bateria de Travis Barker em “All Due Respect” se assemelha a pipocos de tiros – e olha que o icônico membro do Blink-182 nem precisa esforçar sua técnica. “Crown” traz a preguiçosa psicodelia do Foxygen, banda de Diane Coffee, a uma possibilidade elegíaca de abordar a música do Run the Jewels. É a mais estranha faixa do disco, mas boa o suficiente para mostrar que limitação musical passa longe, muito longe do dom da inquietude artística e comportamental da m… – repito! – melhor dupla de rap da atualidade.