Gravadora: Blue Note
Data de Lançamento:
16 de setembro de 2016

Quando começa, com “This is Not Fear”, parece que estamos diante de um álbum de Cecil Taylor, com fraseados rasgados de Ornette Coleman.

Mas o que se ouve em “Find You” é algo totalmente diferente: um fusion-rock mais moderno, que assimila vocoders, sintetizadores saturados, fragmentos de batidas hip hop: baixa o Mahavishnu Orchestra, Sun Ra, a M-Base de Steve Coleman e termina com um solo flamejante de Michael Severson, que lembra Pat Metheny em seus momentos mais barulhentos possíveis.

O pianista Robert Glasper é o maestro que faz com que essas referências se aproximem. Porque, antes mesmo de ser caracterizado pelo instrumento que toca, Glasper é um ás na produção – tanto que seu diálogo com variados ritmos da música negra foram bastante aproveitados por Kendrick Lamar no consagrado To Pimp a Butterfly (2015).

Em seu 9º disco, os diálogos musicais são mais diretos. Entretanto, não possui propósito de coesão estética, como nos sequenciais Black Radio (2012) e Black Radio 2 (2013).

ArtScience é tão pop quanto ANTI (2016) ou Xscape (2014). A diferença é que o jazz é escalonado em tudo isso, como se bebesse das mesmas fontes de inspiração que Rihanna e Michael Jackson.

Robert Glasper e os experimentos que andavam em falta no jazz

“Day to Day” não faria diferença numa playlist com músicas de Random Access Memories (2013).

Afinal, assim como a nostálgica obra do Daft Punk, Robert Glasper também deve muita coisa aos anos 1970, seja na eletricidade de fusion abarcada em “No One Like You” (com solo no sax-soprano de Casey Benjamin que lembra bastante o Wayne Shorter de Super Nova) ou no synth eletrônico que mantém o ritmo de “Thinkin’ Bout You”.

O grande barato de ArtScience é que ele vai gerar uma sensação diferente nos ouvintes a partir desse fatiamento tão deslocado de referências.

Os mais afeitos ao R&B certamente criarão um clima de proximidade com “Hurry Slowly”. Fãs de jazz tecerão loas à releitura de “Tell Me a Bedtime Story”, de Herbie Hancock (Fat Albert Rotunda, 1969) e tão instigante quanto a versão de Quincy Jones (de Sounds… and Stuff Like That!, 1978).

Entretanto, o que permanece no disco é o amálgama.

Não ter linearidade dá a ArtScience um teor enigmático que não se esperaria de Glasper, que mostra que a relação entre gêneros distintos pode ser mais complexa e instigante do que se teoriza.

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