Gravadora: Capitol

Perto de completar sete décadas de vida, Paul McCartney não precisa provar a mais ninguém sua capacidade musical. É justamente isso que vem a mente quando se ouve seu novo disco Kisses On the Bottom que, antes do lançamento oficial, em 7 de fevereiro, já caiu na rede. O ex-beatle tem fãs de todas as faixas etárias possíveis, mas são poucos os que cairão no gosto dessa sua empreitada de voltar aos ‘standards’ dos anos 1930-40.

01 I’m Gonna Sit Right Down And Write Myself A Letter 02 Home (When Shadows Fall) 03 It’s Only A Paper Moon 04 More I Cannot Wish You 05 The Glory Of Love 06 We Three (My Echo, My Shadow And Me) 07 Ac-Cent-Tchu-Ate The Positive 08 My Valentine (ft. Eric Clapton) 09 Always 10 My Very Good Friend The Milkman 11 Bye Bye Blackbird 12 Get Yourself Another Fool (ft. Eric Clapton) 13 The Inch Worm

14 Only Our Hearts (ft. Stevie Wonder)

As referências que saltam aos ouvidos são os trabalhos de Frank Sinatra, Fred Astaire e até mesmo um pouco da estética bossanovista. McCartney, ele mesmo um dos maiores compositores do século passado, sentiu a necessidade de fazer uma reverência direta aos sons que inspiraram a carreira dos Beatles – tanto que ele confessou que gostaria que cada membro dos Fab Four tivesse colaborado com ele no disco.

Kisses On the Bottom foi gravado em sessões em Londres, Nova York e Los Angeles. Foi produzido por Tommy LiPuma e contou com o auxílio da pianista Diana Krall.

O álbum começa com “I’m Gonna Sit Right Down and Write Myself a Letter”, escrita por Fred Ahlert com Joe Young e popularizada pelo piano melódico meio ragtime de Fats Waller na década de 1930. Na versão de McCartney, as notas do piano são mais econômicas e soltas com menos ênfase. Paul quase sussurra, como se estivesse no comando de um baile onde todos os ouvintes centram a atenção no cantor – e não ao contrário, onde o cantor tenta fazer os espectadores dançarem.

Paul passeia pelos standards como se tivesse fazendo um esforço memorial de ambientar-se na década de 1960 junto a John, George e Ringo durante o processo de composição musical. Ainda assim, o registro é o mais intimista possível, um compromisso com as origens próprias de Paul.

Revisitar clássicos antigos não é lá algo que vá dar impulsão à carreira de alguém – principalmente a de um músico que não carece mais disso – mas seria mais palatável aos nossos ouvidos se o músico se empenhasse em dar mais vigor aos vocais. Não que tenhamos que exigir algo desse tipo de um músico que já está com idade avançada; mas, quando o mínimo disso não é buscado, parece que estamos diante de um cantor de botequim nostálgico. Em “Home (When Shadows Fall)”, por exemplo, McCartney salva a melancolia vocal com seu lamento semi-blueseiro. Talvez conseguisse tolher melhores resultados se investisse em arranjos orquestrais, seguindo os moldes da bela versão de Sam Cooke dessa música, gravado em 1964.

“My Valentine” (ft. Eric Clapton)

“My Valentine”, canção que McCartney compôs para sua esposa Nancy Shevell, por outro lado, soa fácil como destaque de Kisses On the Bottom, justamente porque é carregada de sinceridade e devoção – algo que parece escapar nas releituras de “It’s Only a Paper Moon” e “Home (When Shadows Fall)”. Outra composição sua no álbum é “Only Our Hearts”, um dueto com a gaita de Stevie Wonder que carece de um pouco de tempero; parece música de elevador que, se ficar parado em um andar por muito tempo, pode acabar chateando qualquer passageiro apressado.

Quando a voz é escapista, podemos nos confortar com as belas construções melódicas: para tanto, vide “Glory of Love” (gravada por Benny Goodman) e “Get Yourself Another Fool”, que não deve em nada à sessão rítmica daquele período quarentista. (Importante lembrar que o músico se ateve apenas a cantar, deixando a parte instrumental para a sua banda, incluindo a própria Diana Krall, que soa correta em todas as faixas.)

Por mais que seja delicioso trafegar pelas influências musicais de Paul, Kisses On the Bottom pode ser recebido com restrições pelo seu público. Conclusão? Paul McCartney correria o risco de ficar na obscuridade se tivesse seguido os passos de seus heróis musicais – ainda bem que ele decidiu explorar novas áreas porque, como crooner, estaria fadado ao limbo.

Uma ótima peça para pesquisadores e fãs de ‘standards’ clássicos da música norte-americana. Só que, desde agora, um disco cujo provável destino é virar artigo de colecionadores e fãs xiitas.

“Only Our Hearts” (ft. Stevie Wonder)

Melhores Faixas: “I’m Gonna Sit Right Down and Write Myself a Letter”, “The Glory of Love”, “My Valentine”.