
01 Dia Claro 02 Ela Falava 03 A Noite Mais Linda do Mundo 04 Exu Parade 05 The Moon 1111 06 Selvagens Olhos, Nego! 07 HDeus 08 Miss Apple e Zé Pilantra 09 O Que Dirá o Mundo
10 DP
Gravadora: Independente


Em Fahrenheit 451, Guy Montag já mostrava ares de distopia mesmo quando operava como bombeiro responsável por queimar livros no enredo de Ray Bradbury. Tal como faria um personagem de Aldous Huxley, Montag foge do estabelecido após ser provocado. É a provocação que o leva a questionar o conforto.
A julgar pelas vísceras expelidas em Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos (2009), Otto também foi provocado. No entanto, provocado por ter ficado com o coração partido após romper com a ex-mulher e amanhecido sem o abraço diário de sua filha. Isso gerou o seu trabalho mais confessional e emocionalmente sincero, uma pérola de rusgas que destila agressividade.
Sabemos que Otto é versátil o suficiente para lançar um disco diferente do outro – Sem Gravidade (2003) não tem muito a ver com Condom Black (2001), que não tem a ver com Samba Pra Burro (1998), e por aí vai.
A partir do disco de 2009, Otto perdeu o medo de revelar o que realmente sente com a sua música. Bom, como isso daria certo em The Moon: 1111?
De acordo com o próprio, as maiores influências eram o filme de François Truffault mencionado no primeiro parágrafo (experiência que foi o mote da faixa-título e que também aparece em “O Que Dirá o Mundo”, com participação de Lirinha), a sonoridade do Pink Floyd (caldo bem catalisado pela banda formada por Fernando Catatau na guitarra, Dengue no baixo e Pupillo na bateria) e a música de Odair José que, apesar de estar beirando a banalidade (Céu, Dead Lover’s, Mombojó, Zeca Baleiro influenciados), resultou na admirável versão de “A Noite Mais Linda do Mundo”.
É bom dizer logo que a produção do álbum, a cargo de Pupillo, é excelente. Detalhes de sonoridade em algumas construções elevam a poeticidade – na boa, o que é aquela virada de “The Moon: 1111”, a canção? Coisa de quem manja.
O que não dá pra entender é o que aconteceu com Otto. Ele é mais pop do que muita gente imagina. Mas no disco, os elementos que ele trabalhou ao longo da consolidada carreira parecem estar a favor de uma abertura musical desnecessária em sua discografia.
Os sentimentos parecem ser forjados. “Dia Claro” mostra que o cantor ainda não superou totalmente a birra que aparece no disco anterior. Mas, Otto, sempre idolatrado por ser (e parecer) uma fera, amansa demais. Não vemos a fúria resultante da perda – vemos a resignação. Uma resignação que, na voz de Otto, soa como desleixo musical.
“Ela Falava” parece que foi encomendada para trilha de novela da Globo. Em dueto com Tainá Muller, Otto relembra momentos espontâneos com alguma amada, como jogar frescobol e papos de futebol. É uma dor de corno mal resolvida, mas esse é um adjetivo que simplesmente permeia as melhores músicas brasileiras – algo que passa longe, bem longe, dessa faixa. Se na primeira música ele estava manso, agora nos faz lembrar um cordeiro chorão.
Deixando as coisas de sentimento de lado, Otto está mais evasivo e claramente menos inspirado em canções onde se destacam a estrutura estética. “HDeus” é uma faixa desolada e bem escrita, mas sentimos falta de um estouro – que pede pra acontecer com os riffs flamejantes de Catatau.
“Selvagens Olhos, Nego!”, onde se percebe a influência de Fela Kuti que o compositor tanto enalteceu, é uma das salvações de um disco disperso. Com participação da cantora paraense Luê, a faixa é a mistura mais bem-sucedida dos elementos que condensou bem – a fórmula perfeita da miscelânea Condom Black, Certa Manhã… e Sem Gravidade.
Resumindo: para os padrões de Otto, The Moon: 1111 é chinfrim demais. O álbum carrega o mérito de ser cortinado por alguns dos maiores instrumentistas brasileiros e é admirável por não ter similaridade com nenhum outro trabalho solo. Mas Otto parece ter estabelecido uma fórmula para se tornar pop, algo que não deu certo justamente por ser… Otto. Se fosse feito por outro músico, The Moon: 1111 teria uma recepção diferente. Mas o disco não parece ser Otto – parece ter sido superproduzido para uma ‘aposta’ da música nacional.
Ele tentou se desvendar, mas a audição do álbum te faz perceber que nem ele tem cacife pra isso. O que nos conforta é saber que, no próximo trabalho, ele pode lançar o álbum da década. Só que isso está far, far away de The Moon: 1111.
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Para baixar o disco, visite o La Cumbuca. Ouça na íntegra:
Melhores Faixas: “The Moon: 1111”, “Selvagens Olhos, Nego!”.
