Gravadora: Press Pass
Data de Lançamento: 28 de julho de 2017
Avaliação: 5/10

Oito anos após Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos (2009), Otto volta-se novamente para as canções sentimentais. Não que elas tenham se perdido no trajeto entre The Moon 1111 (2012) e o projeto Otto Recupera, em que dava um tom mais dark ao repertório pouco conhecido de sua discografia.

O Otto de Ottomatopeia é sentimentalmente complexo, mais próximo daquele brega nordestino que a MPB passou a admirar nos anos 2000.

O manguebit de Samba pra Burro (1998) e a psicodelia de The Moon 1111 somam a uma estética malemolente que tornou-se ginga própria do compositor pernambucano. Com tantas forças a favor, porém, o teor poético de sua obra se dissolveu.

Sentimentos (e não relacionamentos)

A melhor música do disco, “Meu Dengo”, se sustenta pelo dueto com Roberta Miranda. Vale mais pela novidade de contemplarmos Otto como cancioneiro de um brega aconchegante, perfil que já não se sustenta muito bem em outras canções, como “Bala”, um samba-reggae que carece de um bom gancho, ou “Carinhosa”, que soa como um retalho do bem-sucedido Certa Manhã.

Não se tem o elemento desagregador de um relacionamento que não deu certo, portanto se percebe bem o cuidado de inserir metais aqui, ajustar percussões ali, riffs de guitarra acolá.

A direção musical de Ottomatopeia, que conta com a colaboração do baterista Pupillo, prova que o brega tem força suficiente para dialogar com uma multitude de elementos. Mas é justamente no papel de frontman – a energia e a criatividade em letras inspiradoras – parece ter decaído, algo que já vem desde o álbum anterior.

Misturas boas. Já as letras…

Com exceção de “Caminho do Sol”, não se tem boas canções românticas de atingir a aura sentimental.

“É Certo o Amor Imaginar?” soa como um take passageiro de paixonite virtual.

A pegada roqueira de “Dúvida” nos remete aos melhores trabalhos dele, mas versos como ‘eu só quero cozinhar pra mulher‘ parece sustentar o imaginário de um personagem ogro-sensível que tanto nos deparamos em suas redes sociais. Ela se perde pros reverbs, e o que sobra é algo próximo ao superficial.

Com o pai e o filho Manoel e Felipe Cordeiro, em “Teorema”, ele faz um xote dançante, envolvente no primeiro minuto, mas que vai beirando ao monótono com o passar dos segundos. Os batuques convergem com o rock em “Atrás de Você”, criando uma junção tão interessante como testemunhamos em Condom Black (2001), mas ela descamba para trejeitos pop de um jeito incompatível.

Fato é que Otto atravessa nova fase de sua carreira, mas falta maturação para o efetivo amálgama com o que já foi construído e solidificado anteriormente.

O pernambucano tem 49 anos, mas energia de sobra para chegar lá com maestria. Aguardemos os próximos passos.