Certa vez, Monteiro Lobato falou baboseira. Disse que a exposição sobre Anita Malfatti “põe todo o seu talento a serviço duma nova espécie de caricatura” num artigo publicado em 20 de dezembro de 1917 no jornal O Estado de S. Paulo.
Apesar de todas as polêmicas em torno do mais conhecido escritor brasileiro da literatura infanto-juvenil, Lobato antecipou seu julgamento com um pré-julgamento sobre o que considerava caricatural – neste caso em específico, o Modernismo, que depois se tornaria uma escola essencial da arte brasileira.
Mesmo que esse texto seja recorrente em cursos de crítica de arte, não se pode culpar o autor por sua interpretação. É para isso que profissionais como ele, naquela situação, se arriscam. Não há certo ou errado.
[pullquote]Parece idiota, mas uma simples conversa no ônibus pode ser determinante para que a sua posição sobre um disco mude. E isso está longe de ser um erro[/pullquote]
A opinião, seja de quem escreve ou faz um mero comentário no botequim, tende a ser volátil. E o crítico de arte – que envolve não só pintura, mas música, teatro, cinema, TV e afins – é a maior vítima de sua própria sentença.
A despeito de cada avaliação, estrelinhas ou notas dadas a determinadas obras, o que faz o crítico ser crítico é a argumentação que utiliza. Seja confrontando ou validando as opiniões do leitor, um bom texto aponta contrapontos e inovações conectadas à obra, transcendendo a mera opacidade do ‘bom’ e ‘ruim’.
Acontece que o crítico também é um ser “demasiado humano”, ou seja, tem a sua própria opinião. E ela não é nenhuma matéria exata que permanece inalterada como um texto estático de jornal impresso; tem variações, que levam em conta o veículo jornalístico que atua, o repertório cultural, vícios, temperamento, disposição de tempo, limite de caracteres no texto, contexto social, preferência política… Inúmeros intermediários antes do texto final.
Não que a metamorfose ambulante deva ser levada tão a sério, mas toda opinião está passível a mudanças. O humano nessa questão é que o acúmulo de conhecimento não funciona da mesma forma que acumulamos riqueza; está ao nosso redor e é interferido por nossas experiências, convivências e disposição.
Parece idiota, mas uma simples conversa no ônibus pode ser determinante para que a sua posição sobre um disco mude. E isso está longe de ser um erro; pode ser aproveitado como uma ótima oportunidade de rever o que antes determinou como veredito.
O Na Mira já exercitou tais ‘revisões’: quando falamos sobre The King of Limbs (2011) pela primeira vez, dissemos que “a única coisa que segura a audição é sua brevidade”. Permitimos uma segunda crítica para reavaliar o que achamos sobre o último disco do Radiohead:
‘The King of Limbs’ parece transpor todas as experimentações musicais pós-anos 2000 ao centro do mundo: a África. O Radiohead atinge um som tribal e, ao mesmo tempo, denso, sem perder suas características.
Isso poderia acontecer com qualquer disco. Num exemplo inverso, consideramos Chico (2011) um disco em que o cantor se sente “à vontade no seu confortável divã poético”. Três anos depois, numa lista de discos superestimados, fomos contra nossos próprios argumentos:
Divã? Desde quando algum artista deve se permitir a isso? Não só nos enganamos em colocar os argumentos do último disco de Chico Buarque, como caímos na amarra de aceitar sua falta de poeticidade, falta de criatividade e falta de renovação. Nem de longe ‘Chico’ se equipara ao bom ‘Carioca’ (2006), este sim mais rude e melancolicamente agressivo, como nos bons tempos do compositor.
Jornalistas que veem a mudança de opinião como aspecto natural do ser crítico tendem a se tornar os alvos favoritos dos comentaristas – principalmente os que adoram se manter no anonimato.
Nenhum artigo tem que ser entendido como sentença, assim como nenhuma opinião deve ser vista como melhor que a outra.
O revisionismo de si próprio não possui tempo mínimo de maturação: ora, um crítico pode mudar de opinião de um dia pro outro e, ainda assim, ser convincente em sua argumentação.
Isso não representa fragilidade? Talvez sim. Mas é um tanto egoísta da parte do próprio crítico achar que ser frágil é pior que ser desprovido de bom senso. E isso não tem nada a ver com a direção argumentativa de uma crítica; tem a ver com respeitar seus próprios gostos que, sim, são importantes na condução de um texto (o que não quer dizer que a crítica seja estritamente um emaranhado de gostos pessoais).
Surge, então, outra discussão: quer dizer que sempre que um crítico mudar de ideia ele deve reelaborar o que argumentou? Não necessariamente, senão perderia-se muito tempo (e muitas linhas) numa mesma obra. Não que elas não sejam merecedoras; mas, ao mesmo tempo que poucos estariam dispostos a reavaliar uma mesma obra artística, um número ainda menor de leitores estaria disposto a perder tempo diante de infindáveis argumentos sobre essa mesma obra.
O que se deve combater não é a ausência de vários textos de um mesmo autor sobre determinada obra; é a abordagem de leitores e comentaristas que questionam as possíveis contradições de um crítico. Sim, elas devem ser questionadas, já que a afinidade de pensamentos é determinante para que se acompanhe as opiniões de críticos respeitados. Mas não podem ser vistas como uma fraqueza, ou um erro. São tantas as possibilidades de equação que resultam na mudança, tantos resultados finais que se divergem, que a única exatidão é: crítica não é matemática.
