
01 O Horizonte é Logo Ali 02 Auto Reverse 03 Boa Noite Xangô 04 Cruz de Tecido 05 Fronteira (D.U.C.A.) 06 Anjos (Pra Quem Tem Fé) 07 Doutor, Sim Senhor! 08 Sequencia Terminal 09 Vida Rasteja
10 Um Dia Lindo (part. Edi Rock)
Gravadora: Warner



O Rappa desperta emoções nostálgicas para quem acompanhou a evolução da banda entre os anos 1990 e 2000. Tanto, que dá vontade de pôr novamente em discussão ventanias passadas.
Encaremos, os tempos são outros: já se vão quase 10 anos do triste falecimento de Tom Capone, produtor que ajudou a banda a se reestruturar sonoramente; e não há mais o que dizer sobre a reticência de Marcelo Yuka como compositor. Marcelo Lobato assumiu o seu lugar na bateria e deu um novo frescor sonoro à banda (em Nunca Tem Fim…, por exemplo, boa parte dos efeitos sonoros é creditada a ele).
Após o lançamento do disco Sete Vezes (2008) e uma longa turnê pelo País, a banda deu uma pausa esperta de dois anos. Foi uma boa respiração, o que garantiu uma renovação perceptível na sonoridade intensa e bem inspirada que reside em cada faixa de Nunca Tem Fim…
As composições não fogem do que O Rappa está habituado a fazer há quase 20 anos. O teor social continua, mas o que esses anos reticentes provaram é que, à banda, não cabe mais tentar novas fórmulas.
Eles dizem que sabemos quem é o inimigo invisível em “Cruz de Tecido” que, ao invés de nos entregar jogos enigmáticos, faz uso de fatos. A canção fala do acidente do avião da TAM no Aeroporto de Congonhas, de 2007, mas apenas para enfatizar termos pseudorrevolucionários como ‘controladores sem controle’ em direção ao caos.
Talvez Marcelo Falcão quisesse apontar o dedo em riste à Infraero ou à imprensa, que explorou o assunto como faz habitualmente para manter a audiência comovida. Mas, ainda assim, não sabemos a quem Falcão se refere, porque a emoção também está contida na letra. Se é um ponto difuso, tudo bem, não há problemas. Porque a tentativa (da música) é boa.
Afinal, a boa intenção é uma característica intrínseca ao Rappa desde o início de sua carreira – tanto que você pode ser considerado um ‘chato de galochas’ se ousar criticar qualquer composição deles.
Dentro dessa boa intenção também pode haver resquícios de demagogia, travestidos de crítica social. É o que acontece em “Anjos (Pra Quem Tem Fé)”: trechos como ‘te mostro um texto, uma passagem, de um livro antigo’, que poderia ser proferida por um grupo evangélico de jovens que vão de casa em casa, denotam um discurso religioso que pode muito bem dialogar com a maioria dos brasileiros, mas não encontra brechas para persuadir, digamos, quem não tem fé em nada. Ateus, agnósticos e indecisos não podem seguir este ‘conselho’.
A grande impressão que temos é que a jovialidade d’O Rappa nunca tem fim. Isso é bom e mau. Bom porque a banda sempre terá os braços abertos para a nova geração, soando como melhor opção musical que os Restarts, Latinos e Clarices Falcão que se perpetuam ao longo dos anos. Por outro lado, a não maturidade de suas composições faz com que os antigos fãs invariavelmente estabeleçam comparações com grandes acertos passados (um exercício que soa cada vez mais frustrante, diga-se de passagem).
O Rappa é uma banda cool demais para colecionar adjetivos ruins, mas fica difícil enxergar o trabalho deles sob outra perspectiva a partir de O Silêncio Q Precede o Esporro (2003) que não de meros agitadores.
Agitadores preocupados com o sistema, sim, mas que perderam a criatividade de escapar de clichês como ‘se começar foi fácil, difícil vai ser parar’ (“Vida Rasteja”) ou o refrão de “O Horizonte é Logo Ali”. Se a intenção é dialogar com uma faixa etária de pré-adolescentes, talvez o discurso seja válido. São efemérides, não há outro jeito de encará-las.
No entanto, das boas intenções também podemos enxugar músicas boas. Um bom exemplo é o single “Auto-Reverse”, faixa em que a banda exibe sua principal qualidade: cavar otimismo em letras viciantes e grandes melodias (o som meio Sly & Robbie entremeado a uma energia roqueira é uma decisão muito bem acertada).
Em “Sequência Terminal”, a canção de menor apelo pop do disco, Falcão expõe o lado exasperador de enfrentar o cotidiano: ‘Eu queria me acabar quando o desespero virar lugar-comum/Eu queria me acabar’. É onde Falcão soa mais emotivo e sincero, algo nem sempre possível de maquiar nas demais canções.
Os arranjos de metais e as imprevisíveis linhas de teclado de Marcos Lobato fazem de “Um Dia Lindo” uma empreitada bem inovadora, com o devido reconhecimento ao produtor Tom Saboia. Aqui, O Rappa conta com a parceria de Edi Rock – que também chamou Falcão para cantar em “Abrem-se Os Caminhos”, de Contra Nós Ninguém Será.
“Um Dia Lindo” é um ótimo encerramento de um disco que coleciona os benefícios e malefícios do termo ‘rejuvenescedor’. A grande questão não é saber se O Rappa pode ou deveria ter feito melhor.
O quebra-cabeça é: como Nunca Tem Fim… se encaixa numa discografia em que pontos altos e baixos se contradizem na carreira de uma das bandas que melhor dialoga com a juventude brasileira? Somente a juventude é capaz de encontrar complexidade na atual música d’O Rappa?
Melhores Faixas: “Auto-Reverse”, “Sequência Terminal”, “Um Dia Lindo”.
