Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 2 de fevereiro de 2013
Avaliação: 9/10

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Tudo bem. Você pode estar longe dos 30 e provavelmente não deve entender porque um disco tão esfumaçado como Loveless é usualmente citado como uma das grandes obras-primas da década de 1990. Mas, pelo menos nos últimos meses, já deve ter flertado com o nome My Bloody Valentine ou Kevin Shields em publicações eufóricas pelo lançamento do tão aguardado sucessor do álbum de 1991.

Loveless é o ensaio de como todo grande disco deveria ser: mais interessante a cada audição. O som é barulhento e os vocais de Blinda Butcher são submersos pela sonoridade.

O álbum exala pretensão do começo ao fim de forma incomparável. Kevin Shields moldou sua escultura tal qual um Andy Scott em suas obras mais irreconhecíveis – tanto que foi preciso certo tempo para que o público e os especialistas ovacionassem um estilo inimitável de abordar o rock’n roll.

Foram 22 anos de espera incontida. E qual a primeira pergunta que salta após a chegada de m b v? ‘É melhor? Faz por onde? Realmente eles são geniosos?’.

Os antigos devotos ao som do My Bloody Valentine certamente dirão que sim com argumentos precisos. Ouça “only tomorrow” e “is this and yes” e logo se percebe que não há descaracterização alguma do que se convém chamar de shoegaze.

Agora, se você é um neófito diante do grupo já deixo bem claro: não há nenhuma tentativa de conquistar novo público com m b v.

O disco poderia ter sido lançado em 1992, 2002 ou 2012 que os rumos da música não seriam alterados. Isso porque o My Bloody Valentine é uma das poucas bandas em todos os tempos a não se preocupar com rótulos como ‘ultrapassada’ e ‘copiosa’ – talvez na mesma proporção em que devem se preocupar com rótulos como ‘esquisito’ e ‘fora de moda’.

Uma sucinta audição do álbum já prova que m b v é sim o inevitável sucessor de Loveless. Ainda não se tem informações precisas, mas é quase certo que Shields deve ter lapidado este álbum ainda mais que o anterior (que chegou a causar a falência da gravadora Creation).

O grande papel do álbum é mostrar que o culto a uma das maiores bandas dos anos 1990 não foi em vão: o My Bloody Valentine ainda perdura, e talvez convença muita gente a insistir nas linhas sombrias de “She Found Now” (quase encontro com o post-rock) e se aliviar com a abertura de “New You”, um dos raros momentos em que vemos Shields ceder a uma sonoridade mais aberta com direito a interjeições semi-sensuais de Blinda. Isso é o mais próximo do pop que você vai ter de m b v.

Mesmo com todas as comparações, m b v tenta respirar novos ares. Prova disso é a intersecção inovadora entre guitarra, bateria e sax em “In Another Way”, uma das melhores surpresas do álbum. O som é intravenoso, como se a música do Spiritualized cruzasse com o mais portentoso do fusion-jazz. Instrumentação poderosíssima, para ouvir o mais alto que puder.

“Nothing Is” também cumpre o bom papel de alimentar ouvidos famintos por doses cavalares de barulho. Os riffs e a bateria são repetitivos, quase esquizofrênicos. Mas não há muito o que criticar quando o que se busca é a incitação de pulsações intermitentes, que vão terminar no voo turbulento de “Wonder 2” que finaliza com a seguinte linha: ‘Para ver o amanhã/Todos sabem que você vai muito cedo’.

Talvez esse não seja o caso de m b v, disco que veio para resgatar os mesmos frutos tolhidos duas décadas atrás. O culto à banda pode e deve aumentar, mas sua importância já está intacta desde Loveless.