Gravadora: Slap
Data de Lançamento: 2 de junho de 2014

Guitarras em espiral se abrem a um terreno post-rock. Aos poucos o clima ganha um tom orquestral com meandros pop, quase surf-music-minimalista, de invejável execução. Com timbragem eletrônica, entra a voz: ‘Cuidado, cuidado, cuidado/Perigo, perigo, perigo’.

É a penúltima faixa de Alexandre, quinto disco do Mombojó, mas bem que poderia ser a primeira. Assim, jogaria limpo com o ouvinte e o livraria de encarar uma obra defasada, onde o que deveria ser niilismo se sobressai como bagunça artificial, que nada acrescenta ao que já foi trilhado pela banda.

Tão profundo quanto os sentidos de ‘exclusivo’ e ‘excluído’ citados em “Me Encantei por Rosário”, Alexandre nasceu da pilhéria de ser uma brincadeira sonora de um teclado para se tornar uma pilhéria experimental.

Pilhéria experimental de um grupo que soube dar novo prisma ao pop, mas não soube como deixá-lo artisticamente espicaçado com elegância técnica.

Não se pode excluir o mérito do grupo de se reinventar, algo muito bem catalisado quando se diz respeito à sonoridade. Mas o improviso não deu certo.

As alterações de tempo em “Diz o Leão”, as pequenas colagens eletrônicas de “Hello” e a transgressão pop de “Dance” são acertos fragmentários que caem por terra em um quesito que a banda parece ter esquecido de considerar: o conteúdo.

As citações a mudanças e novos paradigmas permeiam a maioria das faixas. Em “Me Encantei por Rosário”, fala do ‘Mais do mesmo/(…)E vai se ouvir de alguém que o mundo foi mais bonito‘. “Hortelã” teoriza uma ‘dança do impacto‘ em pegada intimista, um tanto monótona. Partindo do pressuposto de ‘nada de se acomodar‘, “Dance” é a forma que a banda encontrou de dizer que a busca de novos ares é benigna. ‘Mas todo tempo se renova/Esperança‘ – esta última é de “Pro Sol”. Isso só reforça o teor autorreferencial nas composições. A banda quer mostrar que incorporou aquilo que está transmitindo e, desta forma, Alexandre se torna um exercício repetitivo de busca do inovador, do inesperado, com resultados que não se aplicam bem. Ficam presos apenas à mensagem rebarbativa.

Enumerar os campos sonoros de Alexandre é um dos poucos apreços divertidos: capta-se o Jorge Ben pré-fase A Tábua de Esmeralda (1974) em estranha sintonia com Stereolab (Laetita Sadier participa em “Summer Long”, uma das piores do álbum). Também há fatias de Sonic Youth e Arnaldo Baptista nesse meandro, além das mencionadas (em outros textos) Nação Zumbi e Radiohead.

Resta pouco, muito pouco daquele Mombojó de Nadadenovo (2004) – um dos melhores discos nacionais da década de 2000 – e Homem-Espuma (2006). Quando se espera uma continuidade desse período numa faixa como “Rebuliço”, as programações eletrônicas, teclados e samplers distorcem tudo. Poderia ser um tiro bárbaro, mas acaba soando óbvio demais. ‘Não vou me conformar’, repete a voz transfigurada, sublinhando o que a sonoridade supõe. Não precisaria, talvez nem deveria.

Não que a banda devesse se limitar ao formato canção, que tanto dá certo nas apresentações há mais de uma década. Mas a linearidade mínima, que faz com que o ouvinte pelo menos ouça o disco até o fim, é quase inexistente.

Apenas trechos de Alexandre se destacam, como o meio de “Hello” com um ímpeto flamejante (até que Felipe S. novamente fala de ‘desapego’, repetindo aquele discurso…).

Por isso, as vinhetas soam mais interessantes.

“Ping Pong Beat”, com seus barulhos raquete-bolinhas-programações, soa bem curiosa, mas só para ouvir uma vez e pronto. A faixa-título é imbuída de mistério krautrock/sci-fi, nos moldes Blade Runner. Seria rude demais nomeá-la o melhor take do disco, justamente porque tem apenas 57s de duração. É que o Mombojó não consegue se sustentar nesse período, em nenhuma canção de Alexandre, com um formato atraente que convença de que estamos diante de um ato descompromissado ou (no caminho inverso) hibridamente complexo.

Se a intenção era evidenciar um rumo experimental, um novo frescor, importante dizer que a banda conseguiu. Só não conseguiu aliar tal sonoridade a algo musicalmente interessante. Ficou apenas a essência, o improviso, sem que essa transfiguração resultasse em questionamentos, novos apontamentos ou representasse uma força musical para a banda seguir daqui em diante.

Pouco dá para entender de Alexandre numa primeira audição. Passa a segunda, terceira, quarta, quinta vez de reprodução, e a impressão é de pura perda de tempo à procura de uma substância ínfima. Se perde, e não volta.

Dizia o dramaturgo francês Molière que o “improviso é a pedra de toque do espírito” – e ele não estava satirizando. Para o Mombojó, no que diz respeito a Alexandre, a acepção se reduz a mera pedra de sapato. Que dá pra tirar (do fone de ouvido).