Gravadora: Constellation
Data de Lançamento: 3 de fevereiro de 2015

Sintomático que Matana Roberts tenha optado por fazer tudo sozinha em COIN COIN Chapter Three: river run thee. Não fosse o uso do sax-alto em linhas improvisadas, com traços característicos do free-jazz, bom, talvez realmente haveria de se questionar: por qual direção musical a instrumentista estaria partindo em sua trajetória de rever a origem escrava da sociedade norte-americana pré-século XIX?

Ao abrir mão da participação de outros músicos, ela fecha a interpretação desse momento específico apenas para si.

Se antes a sonoridade do piano de Shoko Nagai ou o double-bass de Thomson Kneeland ajudavam a recriar o imaginário do ouvinte na trajetória ancestral do anterior COIN COIN Chapter Two: Mississippi Moonchile (2013), aqui Matana sentiu a necessidade de impor a sua versão do impacto que a exploração, o sofrimento e o trabalho árduo de séculos atualmente refletem em sua obra.

Sonicamente, as perdas não são sentidas. Drones, efeitos de sintetizadores, o som de um piano Archambault de 1900, monotron e samples dão uma aura mais rudimentar ao som da saxofonista.

Unindo o traço antropológico do jazz, a narração do folk e o sentimento do blues, a saxofonista mostra que há muitas outras perspectivas de olhar para o passado

Nesse quesito, sua música perde em dinâmica; por outro, ganha maior liberdade para acumular mais átomos do blues e do folk, gêneros indiscutivelmente ligados ao canto desses sofrimentos – sofrimentos de um povo que também ajudou a constituir um ideal de sonho americano, ainda que isso seja ocultado pela indústria de massa.

Vale lembrar que o canto de Matana, no álbum, recobra as tradições dos gêneros citados. Nesse sentido, esqueça Bessie Smith ou Billie Holiday; o canto é em spoken-word, algo que nos remete ao Science Fiction (1971), de Ornette Coleman, com a riqueza espiritual de Universal Consciousness (1971), de Alice Coltrane.

A clausura de COIN COIN Chapter Three torna a obra de Matana ainda mais complexa. No entanto, pela carência da dinâmica e do swing que paulatinamente sustentam a musicalidade jazzística, o disco é mais difícil de digerir, mesmo aos mais afeitos à sonoridade antropológica da saxofonista.

Por outro lado, dificilmente Matana Roberts conseguiria extrair de um quarteto o achado que teve em “dreamer of dreams”, um noisy-free de notas lamuriosas.

“nema nema nema” é ainda mais espiritual; ouvimos a voz da jazzista evocar o gospel, enquanto ruídos ao fundo nos dão a sensação de má interferência nessa sintonia com o passado. A continuação do canto de Matana, porém, é prova de que essas interferências não atrapalham em nada o seu raciocínio, a sua conexão com a própria ancestralidade. Ouví-la, nesse momento, é testemunhar o símbolo de uma resistência que não se perdeu, mesmo ao longo de tantos anos, tantas histórias, tantos acontecimentos.

Só pelo fato de supor uma nova forma de narrar o sofrimento da sociedade negra norte-americana, Matana Roberts já inovou. Unindo o traço antropológico do jazz, a narração do folk e o sentimento do blues, a saxofonista mostra que há muitas outras perspectivas de olhar para o passado – muito além de Louis Armstrong, Duke Ellington, Marian Anderson, Mississipi John Hurt ou Sarah Vaughan.

Ao contrário destes citados, Matana não recorre à técnica – recorre a uma espiritualidade quase fervorosa. Não à espiritualidade de uma religião, mas, sim, a uma sensível espiritualidade de pertencimento.