Gravadora: Som Livre
Data de Lançamento: 16 de junho de 2014
Geralmente a gravação de um Acústico MTV costuma ser divisora de águas. Capital Inicial recobrou a popularidade perdida, Marcelo D2 abrangeu uma linguagem mainstream e expandiu o público de forma estrondosa, Roberto Carlos provou que é a Globo que decide sua carreira (a ponto de vetar até a aparição do cantor na capa do DVD) e o experiente Paulinho da Viola pôde mostrar seus belos sambas a uma legião de novos fãs jovens.
Se houve alguma mudança nos rumos artísticos de Luiz Melodia, pode-se argumentar que ele aproximou-se ainda mais de suas raízes do morro.
Esse caminho, já proposto no disco de interpretações Estação Melodia (2007), infiltrou-se de tal maneira em seu modo de fazer música que pouco resta da influência de Jovem Guarda ou neotropicalismo – ainda que o compositor diga que há semelhanças com Pérola Negra (1973).
Ainda assim, Luiz Melodia permanece único. Para chegar à segurança vocal de hoje, desenvolveu um carisma que soa intrínseco a todas suas canções a partir de então. E esse carisma musical também surge em Zerima, empreitada ainda mais afluente que os discos mais recentes.
Zerima é o primeiro álbum de inéditas de Melodia em 13 anos e o mostra bem renovado.
Em “Cheia de Graça”, sob tempero de um funk malandro cozinhado pelo arranjo de Julinho Teixeira e um baixo marcante de Luiz Maia, o cantor transmite frescor de um cara que faz da experiência sabedoria e vontade de viver.
“Vou com Você” traz o samba típico da Estácio com uma levada que se mistura ao forró. A insistência de paquerador não só comprova o quesito malandragem em sua obra, como serve de convite à dança a dois que tanto se espera com a desejada desconhecida.
A segurança com que Melodia canta o torna testemunho de uma vida que pouco tem de ruim. Mesmo numa canção como “Caindo de Bêbado”, ele assobia após gastar todo o dinheiro e se desiludir com o amor. “Do Coração de Um Homem Bom” mostra o lado melancólico do compositor e, ao mesmo tempo, romântico, sob bela linha orquestrada de piano e violino. E o que seria “Sonho Real” se não a ‘sorte’ de ter a melhor pessoa do mundo ao seu lado?
Sua versão de “Maracangalha” faz jus à homenagem centenária de Dorival Caymmi – ainda que provavelmente ele não gostasse das interferências. Surpreende por conectar elementos da black rio setentista à modernidade do rap, cantado pelo filho de Melodia, Mahal Reis.
Outra interpretação marcante é “Nova Era”, de Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho. A beleza se desmancha em um otimismo tão convincente, quanto acalantador.
Devolvendo a honra da participação em “Vira Lata”, do disco Vagarosa (2009), o cantor chamou Céu para registrar dueto em “Dor de Carnaval”, colocando-a no seu ritmo, na sua onda.
O melhor é que na música de Luiz Melodia a beleza não parece forçada. É como se o perfume de Zerima estivesse aromatizando todas nossas percepções sentimentais. Nesse momento, saem as guitarras distorcidas e os desejos reprimidos; entra o violão, o piano, a levada marota e a voz transbordante de Melodia, que faz tudo parecer tão natural e, ao mesmo tempo, simbólico.
Pra vida ser boa não é difícil…
