Gravadora: Columbia
Data de Lançamento: 23 de setembro de 2014

Aos 80 anos de idade, Leonard Cohen prova que envelhecer não é problema. Em 2012, usou a poesia a favor da sabedoria que a idade lhe deu com o excelente Old Ideas, que selou seu retorno como compositor de forma surpreendente.

Dois anos é um tempo relativamente curto para compor material de um novo disco – ainda mais quando se fala de Cohen, que passou 8 anos sem nada inédito (e por muitas outras turbulências) antes de Old Ideas.

Gosto das coisas devagar’, inicia com o rhythm’n blues de “Slow”. ‘Não é porque sou velho/Não é pelo que a morte representa/O devagar está no meu sangue’.

Sete faixas de Popular Problems foram escritas por Patrick Leonard. Não sem antes, claro, a canetada final do bardo canadense. Além de manter um invejável currículo que inclui trabalhos com Roger Waters, Madonna, Elton John e Jeff Beck, Patrick comanda as diversas facetas sonoras de órgão e teclados. Soa elétrico, catártico em “Slow”. Arrebata na melancolia que forma o interlúdio de “Samson in New Orleans”. Acompanha distantemente o canto de Cohen em notas econômicas de órgão em “A Street”.

Neste novo trabalho, Leonard Cohen encara a idade com naturalidade bem maior que Old Ideas. O disco anterior refletia sobre a velhice sob um candelabro com velas próximas a se apagar. Popular Problems é o abrir de uma janela que parecia fechada por tempo considerável, com vista de uma tarde que aos poucos se abre para a noite.

Então, Cohen sai em direção ‘ao que costumava se chamar de rua’, como canta em “A Street”, vindo de um poema publicado na revista New Yorker, em 2009.

Como supõe “My Oh My”, um passeio aciona a nostalgia. Neste delicioso folk, Cohen parece lembrar uma paquera antiga, com garotos encarando a acompanhante por sua beleza. Ainda que o desfecho não tenha sido bom (‘Te levei à estação/Nunca perguntei o motivo’), a beleza da lembrança felicita o compositor.

O obscurantismo não se distancia por muito tempo. Lembranças nefastas invariavelmente ressurgem. ‘Vi pessoas morrendo de fome/Havia assassinato, havia estupro/As vilas estavam queimando/Eles estavam tentando escapar/Não conseguia ver os seus olhares’, relembra em “Almost Like the Blues”. Nela, o compositor parece ter encontrado com a morte, até aceitar o ‘convite que um pecador não pode recusar’. As imagens fétidas estavam debaixo de seus pés. A levada agitada da canção tonifica a história em si, que não deixa de ser uma metáfora de um ser que passou por muitos percalços em oito décadas de vida. Cohen antevê a morte como uma sina inescapável. Pelo teor da canção, imagina passar um bom tempo no purgatório.

“Born in Chains”, todavia, são lembranças de um passado que não aconteceu. As notas eletrificadas do órgão fervem. Com o adido gospel das backing vocals Charlean Carmon, Donna De Lory e Dana Glover, a canção torna-se sacra. Cria um misticismo que, por mais que soe como refúgio de um poeta que cantou as durezas da vida com sabedoria de mago, é verossímil ao inconveniente posfácio de uma obra cuja emoção e inteligência permanecem em ascensão. Mesmo aos 80.