Gravadora: Universal
Data de Lançamento: 12 de maio de 2015

A formação de Lenine em Engenharia Química explica o título de seu novo disco – mas não explica a essência.

Uma das principais características do carbono é a alotropia, ou, pelas palavras do próprio músico, “a facilidade que ele [carbono] tem de se ligar com outras coisas, formar outros elementos”.

Os títulos de disco de Lenine são substanciais desde sempre e, nesse quesito, Carbono não representa novidade alguma. Antes de tudo, marca o retorno à velha forma, à perspectiva de construção musical selando a junção de sua poesia emotiva/concretista com a estética pontuada por uma brasilidade experimental, pós-Tropicália, pós-manguebit, pós-MPB.

Lenine cita o carbono como a totalidade dos elementos, dando-lhe atribuição quase divina, espiritual

Ao avançar as faixas do disco logo se percebe o quanto a ‘limpeza sonora’ de Chão (2011), disco de proposta acústico-minimalista, foi importante na carreira de Lenine. Mostrou, acima de tudo, que o distanciamento das influências externas pode trazer o artista a um ‘eu’ que ele jamais teorizaria.

Dessa introspecção, exaustivamente testada nos palcos, surgiu um novo frescor para reimaginar o formato de uma canção.

Carbono nos faz pensar que um processo químico é a grande causa, mas no mundo material as coisas não são tão abstratas assim: foi na pressão de dois meses, com estúdio e masterização marcados, que Lenine idealizou o projeto. E, quer saber? Melhor desse jeito.

É, eu ando em busca dessa tal simplicidade‘, diz o cantor em “Simples Assim”, a mais íntima composição e que serve de órbita do disco. A canção crava o modus-operandi, mas destoa tematicamente do álbum.

Obras como Olho de Peixe (1994), Labiata (2008) e Falange Canibal (2002) são perenes nas 10 composições do disco, mas há algo a mais. As novas vivências, a ciência, os experimentos e as novas parcerias são determinantes na condução das faixas.

Pra começo de conversa, há a tão sonhada parceria entre o compositor e o Nação Zumbi pra deleite não só dos pernambucanos. “Cupim de Ferro” é um dueto de gigantes, o meio-termo exato de dois diferentes expoentes da música pop nada convergentes.

“Castanho” unifica a vivacidade do compositor em reunir-se à banda com suas ideias sustentáveis.

Em “O Impossível Vem Pra Ficar”, Lenine faz o ouvinte imaginar como seria se o pernambucano investisse no rock. A possibilidade do carbono misturar-se a tudo é salientada para entender as relações da natureza. Águas e pedras são a base do nosso lugar. E essa base se correlaciona com o comportamento humano: ‘Era um sal, um giro, um clique, era o que/Um instante preciso um disparo para a foto nascer/Era um susto, um sim, e a sorte e acontecer/Uma frase que funde a ideia‘.

“A Causa e o Pó” argumenta mais diretamente sobre o que o homem tem a ver com o ambiente. Lenine cita o carbono como a totalidade dos elementos, dando-lhe atribuição quase divina, espiritual. É esse elemento químico, também, o contraponto: com deturpado uso dele, o homem deteriorou os recursos naturais citados em “Quede Água”. A sonoridade parece fuligem, estética atrelada ao industrial que, neste caso, significa a destruição. O cenário desenhado pelo compositor é aterrador (e, salientando Chico Science, são os ‘debaixo’ que ‘descem”). É a composição mais pragmática de Carbono sobre o tema ambiental.

O disco trata paulatinamente sobre a natureza e como ela reage no ser humano. Ela nos torna selvagens, como “Grafite Diamante” endossa. É imensa e intensa, tal qual afirma “O Universo na Cabeça do Alfinete”. A necessidade de se conscientizar transcende a demagogia; Lenine quer que você compreenda o mundo ao compreender melhor a si mesmo.

Em vídeo exclusivo, Lenine detalhou o processo de Carbono: