Gravadora: DFA Records/Columbia
Data de Lançamento: 1º de setembro de 2017
Avaliação: 8/10
Não é bem o fator novidade que faz do LCD Soundsystem um grupo que valeu a pena esperar o retorno (após o ótimo This is Happening, de 2010).
O grupo de James Murphy pode se destacar de qualquer outro na atualidade, mas não pontua muito bem no quesito originalidade.
Por conta disso devemos recauchutar american dream? Olha, pela capa horrível em todos os sentidos – da falta de criatividade da imagem à fonte de causar horror em qualquer amador de design gráfico – a volta do LCD Soundsystem mereceria uma preparação melhor.
Singles de peso
Talvez Murphy achou que compensou bem esse lado com os singles. Quando “tonite” foi lançada, a expectativa era de que o LCD Soundsystem estaria ainda mais conectado às pistas. Isso realmente acontece em algumas peças, mas distante do universo da EDM. O pós-punk e o som modular dos anos 1980 têm um peso maior em american dream do que nos discos anteriores (e taí um bom argumento para tirar pontos da originalidade do grupo).
“call the police”, por outro lado, reaproximou de novo Murphy aos efeitos melancólicos dos sintetizadores e das guitarras. A dinâmica é a mesma: ele inicia a canção tal qual um crooner das casas noturnas, e vai se empolgando com o decorrer da faixa, que vai se engrandecendo aos poucos. A diferença é que, aqui, ele soube usar o timing a seu favor a ponto de conseguir convencer o ouvinte de que criou um novo hino logo na primeira audição.
Com todo o gigantismo em torno de “call the police”, todos esperavam algo do nível de Sound of Silver (2007), até hoje o disco mais celebrado da banda.
Referências das boas
Os tempos podem ser outros, mas as referências do LCD Soundsystem permanecem as mesmas. A primeira faixa do disco, “oh baby”, lembra a fórmula de um hit certeiro de Public Image Ltd. (sério, “Rise” não sai da cabeça depois disso aqui).
Já a seguinte, “other voices”, faz uso da percussão de maneira parecida com o que o Talking Heads na áurea fase entre Fear of Music (1979) e Remain in Light (1980).
Até aí, pouco importa. O LCD Soundsystem consegue hipnotizar e trazer para si o ouvinte, mesmo com os trejeitos de Murphy, que mais parece um eloquente desvairado incapaz de produzir rimas.
A estética construída em american dream favorece a tosquice, certamente um movimento político adotado como resposta à turbulência social que acontece no país em que nasceu.
“i used to”, por si só, é um dos grandes exemplos de como o encontro do pós-punk com a eletrônica ainda tem espaço na música contemporânea. “how do you sleep” dissolve esse encontro de uma maneira mais progressiva, de jeito parecido com que ele fez em “Pow Pow” (de This is Happening), só que bem mais arrastado. Espera-se que venha um batidão dos bons pra compensar, mas Murphy só brinca com esse senso mesmo, e a faixa se transforma numa oportunidade perdida.
“change yr mind” e seu uso intrincado de guitarras mostra uma estranha proximidade com a influência avant-garde no rock. Ela poderia ser melhor tecnicamente, mas a justaposição dos vocais deixa bem claro que uma espécie de amadorismo funciona melhor, e quando o ouvinte menos espera, tá lá gritando ‘if you change youur miiiinddddd’.
“emotional haircut” traz de volta aquele tipo de eletrônica esquizofrênica do primeiro disco, só que com mais vigor – graças à bateria à lá Joy Division de Pat Mahoney.
De todas as faixas, porém, a que soa mais criativa é justamente a mais melancólica do disco. Dedicada a David Bowie, que insistiu para que Murphy voltasse com o projeto antes de morrer, “black screen” faz uso de notas fragmentadas de piano. É como se fosse uma ode, uma carta aberta a um mestre que lhe ensinou que não se deve desistir.
Há muitos caminhos para o LCD Soundsystem explorar no decorrer de sua trajetória. Eles não precisam ser a reinvenção da roda; sua grande contribuição, mesmo, está na forma de fazer com que os mais estranhos sons caiam bem nas pistas.
Em outras palavras, é na despretensão que mora a riqueza do grupo.
Você sabia que o punk e o pós-punk faz parte de uma das influências do LCD Soundsystem? Confira este vídeo para entender por que o movimento continua inspirador 40 anos depois (para ver outros, inscreva-se no nosso canal do YouTube):
