Da dir. p/ esq.: Thiago França, Juçara Marçal e Kiko Dinucci

Gravadora: Independente

Download gratuito pelo site oficial

A música brasileira vive um ótimo momento revivalista de referências africanas e, como já cansei de dizer aqui, um dos responsáveis por isso é o flautista e saxofonista Thiago França. No disco que lançou em conjunto com o violonista Kiko Dinucci e a vocalista Juçara Marçal, essa verve se faz presente, mas com um toque de brasilidade que afasta qualquer comparação a um período mais clássico do ritmo.

Metá Metá contextualiza o que acontece agora na música brasileira. Dá pra sentir como as referências africanas se entrelaçam ao nosso som

A forma esvoaçante que vem lá do free-jazz deleita qualquer ouvinte em faixas como “Obá Iná”, onde Thiago exibe toda a sua fúria magistral em simbiose com o violão de Kiko. De repente, a canção se transforma em um ritual candomblé após Juçara ordenar abrir ‘caminho para o rei’. Finda a canção, e “Obatalá” inicia como se fosse ambientada em um sonho sinistro e fétido, que vai abrindo alas para algo mais limpo e calmo com os belos acordes de Kiko e a voz serena de Juçara. Seria uma referência amazônica e ambiental, como se os rios fossem uma inspiração transbordante que uniu os músicos em um Avatar brasileiro.

É bem por esse clima flutuante que segue o álbum Metá Metá. Por mais que possa ter sido pensado como um disco que bebe de águas africanas (o título se refere a algo como ‘três ao mesmo tempo’), nele vemos como nossa música é influenciada por essa corrente. A flauta de Thiago França às vezes remete a algo tribal, mas o que interessa aos três músicos é criar um diálogo entre as culturas que falam língua portuguesa.

Da África, eles citam Moçambique e Angola – e os ritmos semba e zambê em “Umbigada”. Esta faixa faz alusão a uma dança bem popularizada pelos escravos negros no Brasil; o nome faz menção ao umbigo que ficava de fora enquanto todos dançavam.

Todas essas menções fazem sentido à música brasileira quando ouvimos “Papel Sulfite”, que diz: ‘vamos lá, experimente’. Juçara adquire um tom vocal mais limpo e próximo do ouvinte, auxiliados pelos instrumentos de Thiago e Kiko. Em “Trovoa”, como o próprio nome dá a pista, Juçara vem como trovadora em um momento voz e violão (Thiago assume as flautas) assumindo ‘que fuma Marlboro na rua como todo mundo’. A vocalista segue em um devaneio dylanesco e dá diversas matizes que dão uma profundidade única ao amor. Não à toa, é uma das canções mais belas de Metá Metá.

Ainda que não seja de fácil audição, Metá Metá é doce e bem profundo. Poderia muito bem servir de contexto para o que acontece agora na música brasileira: dá pra sentir como as referências africanas se entrelaçam à nossa música.

Ouça abaixo algumas faixas de Metá Metá. Para fazer o download do álbum completo, visite o site de Kiko Dinucci.

Melhores Faixas: “Umbigada”, “Trovoa”, “Vias de Fato”, “Obatalá”.