Gravadora: Interscope/Aftermath/Top Dawg Entertainment
Data de Lançamento: 9 de fevereiro de 2018
Avaliação: 9/10

Não haveria forma melhor de chegar ao mainstream: a consagração do público e 1º lugar no topo das paradas Billboard com a trilha sonora de um filme com propósito revolucionário.

Pantera Negra é o ápice de representatividade da cultura negra em um ambiente tão embranquiçado como Hollywood. Como enfatizou o rapper Parteum, a “‘verdade’ não é perpetuada sem repetição. Por isso, Pantera Negra importa. Quebra um ciclo de repetição, de manutenção da imagem do super-herói caucasoide, defensor dos ‘valores republicanos’”.

Desde To Pimp a Butterfly (2015), Kendrick Lamar tem atingido o topo da Billboard 200 (de álbuns) – colocando, inclusive, o disco de sobras untitled unmastered (2016) lá também. Com DAMN. (2017), o rapper colocou não só o disco, como conseguiu façanha ainda mais difícil: atingir o topo das paradas de singles (Hot 100) com “HUMBLE” e levar “DNA” à 4ª posição.

Este background é importante para contextualizar a relevância de Kendrick. Mesmo liderando a maioria das listas da crítica especializada, Kendrick está longe da popularidade de um Drake – quando não é ‘ameaçado’ por um ou outro rapper de Atlanta que surfa na onda do trap.

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Pantera Negra: filosofia

As distinções têm ficado cada vez mais claras entre o rap imbuído de protesto social e o rap mainstream (que, todos sabem, não exclui o fator qualidade).

Ao ouvir a trilha de Pantera Negra, a ruptura musical acompanha e potencializa o impacto avassalador do filme, com casting negro, dirigido por negros e com história negra, numa mitologia inspirada pelos mistérios da África.

O papel de curador de Kendrick é mais importante que sua presença. Ele se preocupou com o misticismo em torno do tema, criando uma paisagem sonora que dá aura divina a heróis, guerreiros e desbravadores. Sim, todos negros.

E eles têm uma linguagem e filosofia próprias, como fica evidente no prólogo de “Paramedic!”, de SOB X RBE, grupo de seis rappers de Vallejo, na Califórnia (EUA).

O canto da natureza, em “X”, é um presentão ao parceiro ScHoolboy Q, que a torna obscura ao lado de 2Chainz e Saudi. Dá pra dizer que é uma das melhores parcerias de Q com Kendrick.

Refrões de Kendrick Lamar

A onipresença de Kendrick está na força dos refrões, algo que ele percebeu causar maior impacto de público em sua obra desde good kid m.A.A.d city (2012).

No combo que reúne Future, Jay Rock e James Blake (“King’s Dead”), ele retoma a veracidade de suas melhores canções.

Ao lado dos idôneos Vince Staples e Yugen Blakrok (“Opps”), a modulação da eletrônica transfigura-se em meio a percussões que ecoam um Kendrick viciantemente pop, como se fosse uma entidade de Wakanda.

Ele vai a fundo na influência das chants africanas em “Redemption”, com participações valiosas de Babes Wodumo e Zacari e não cansa de repetir ‘emotional emotional emotional’ em “Big Shot”, adornado pelo som de uma flauta envolvente que o une a Travis Scott.

Quando não é Kendrick realizando o papel de centralizador dos temas, o fardo é carregado por gente de peso. Se o ouvinte dedicar mais de duas audições para “All the Stars”, ficará hipnotizado pelo poder de atração do refrão de SZA.

Deixar que a talentosa Jorja Smith dominasse “I Am” sobre entremeios de baixo e guitarra da produção de Sounwave… É mais uma das muitas maravilhas da trilha sonora de Pantera Negra, que não deve ser comparado à discografia solo de Kendrick Lamar, mas certamente merece figurar o topo da Billboard 200 por sua distinção e por uma qualidade conjuntural que faz do pacote completo de Pantera Negra um verdadeiro épico pós-moderno.

Leia também: Crítica do disco DAMN. (2017), de Kendrick Lamar