Gravadora: Warp
Data de Lançamento: 6 de outubro de 2017
Avaliação: 9/10
Chamada por atos que vão de Gorillaz a Solange, Kelela tornou-se uma das cantoras mais requisitadas no meio alternativo por um motivo muito simples: é uma das cantoras de R&B mais originais dos últimos anos.
Ela é dotada de um virtuosismo técnico que alia sentimentos humanos a atmosferas robóticas, sejam elas insanas ou monocromáticas, ou até mesmo conectadas ao que muitos chamariam de futurismo. Tanto que, se o assunto afrofuturismo vier à tona, não estranhe se se deparar com o nome de Kelela no meio. Suas parcerias com Nguzunguzu e Jam City conectam o mais puro da soul music a um niilismo tácito que diversos autores, de Ray Bradbury (Fahrenheit 451) a Margaret Atwood (O Conto da Aia), utilizaram como contexto em tramas distópicas do futuro.
Numa primeira audição, Kelela parece antenada a todos esses assuntos. Aprofundar-se em seu primeiro álbum de fato, Take Me Apart, conduz a outro tipo de interpretação.
Nele, a cantora de Washington (EUA) de origem etíope deixa a ambiência externa tal qual um chroma key em que produtores do calibre de Ariel Rechtshaid (Adele, Vampire Weekend) e Arca (Björk, além de expressiva carreira solo) ajudam a erigir um contexto, influenciado pelas sublevações de sentimentos, temperamentos, anseios e desejos transmitidos pela cantora.
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Idas e vindas de um relacionamento
Em linhas gerais, Take Me Apart fala de um relacionamento que vai e volta diversas vezes. É no meio de tudo isso que reside a complexidade: do primeiro término do relacionamento, em “Frontline”, em que Kelela diz seguir em frente deixando algo importante para trás, até perceber, em “Waitin”, a reação dessa pessoa.
De início, o maior medo dela é perder tempo, como ela canta na primeira canção do disco: ‘É uma corrida contra o tempo quando você está na linha de frente’.
Ela hesita, mas decide voltar ao relacionamento, na faixa-título. Essa volta, claro, é mais intensa – vide a força das batidas que permeiam a canção, levando a percussão a um outro planeta. Kelela aponta um fortalecimento dessa relação à medida em que as conversas (e, principalmente, o sexo) são melhores.
Mas, nem tudo são flores. No conceito cronológico de Take Me Apart, há um novo rompimento na 4ª faixa do disco, “Enough”. A produção do trio Arca, Rechtshaid e Kwes (britânico que trabalhou com Damon Albarn, Bobby Womack, entre outros) encapsula o cansaço do relacionamento da cantora: ‘Você não vê, meu amor, que estou resistindo por mim mesma?’, além de uma voz das sombras, que ecoa: ‘Nos perdemos um do outro agora‘.
A cantora busca uma liberação, que a leva a uma jornada do autoconhecimento (“Jupiter”), até que surge um 3º retorno pro cara, em “Better”. Numa atmosfera mais límpida e acústica, Kelela soa mais cética e serena, (talvez) livre da paixão e ausente de desejo.
Dentro desse contexto, o single “LMK” ganha ainda mais força. Sigla para ‘let me know‘ (permita-me saber), Kelela pede para que o parceiro seja mais comunicativo com ela.
Até aí, captou que cada ida e vinda traz um aprendizado, certo?
Esta canção, no entanto, foge do preceito dual de comunicação em um relacionamento. Em vídeo ao site Genius, ela deu a entender que esse convite à comunicação se estende a todo ser humano, como se ela quisesse abraçar e ser abraçada por todos. Ao dizer ‘você pensa que é a minha carona pra casa, amigo? Porque minhas garotas estão estacionadas lá atrás’, tem-se um sentido duplo:
1. Ela não precisa essencialmente de você, homem, ditando o que ela deve fazer em um relacionamento
2. Elas (mulheres) não precisam essencialmente de vocês, homens, tomando as rédeas das vidas e dos direitos delas.
No 3º round de todo esse vaivém (“Truth or Dare”), ela tenta fazer das fantasias sexuais um atrativo para que o relacionamento perdure. Kwes foi feliz em criar um tipo de pulsação intensa que parece interligar a música de Sade a um tipo de enredo futurista de amor e sexo.
Essa intensidade chega ao ponto do descontrole em “S.O.S.”, até que o risco de possessão surja em “Blue Light”, com um tipo de produção que lembra bastante o Kanye West da fase My Beautiful Dark Twisted Fantasy (2010). Kelela diz manter a ‘guarda baixa’, porque ‘com o seu amor por perto, posso salvar o mundo, para melhor‘.
Em todo o trajeto de Take Me Apart, pode não parecer, mas a maturidade de Kelela atinge níveis filosóficos. Trata-se de uma jornada rumo à inteligência emocional, só que no pano de fundo de um relacionamento.
Diferente de suas contemporâneas (veja quem são no vídeo das 10 melhores cantoras de R&B atuais), que absorvem o contexto social a qual estão inseridas, Kelela está ali, despida, persistindo, confrontando e resistindo ao mesmo relacionamento. A essência disso fica evidente em “Onanon”: ‘Não estamos em uma corrida, você está fugindo/Amanhã terminamos, é como um terremoto/(…)Não é um término, é apenas um tempo/Estamos andando em círculos‘. Essa proposta é tão certeira, que o ouvinte acaba viciando-se no refrão, de tão convincente que a música é.
Contexto social
Das idas e vindas, não perca as contas: foram 3 tentativas de retorno. E cada um teve peso significativo para Kelela, que explica em “Turn to Dust”: ‘Você tomou meu tempo, meu corpo e, agora, minha alma’. O som Romântico-pós-apocalíptico evolui para um trip-hop pontuado por uma percussão maquinada, em que a cantora conclui que o parceiro está errado em toda essa história ao manter-se intransponível.
Sem deixar claro que se trata de uma certeza da personagem ou da cantora real Kelela, em “Altadena” vem a transposição para o coletivo. A história de persistência em um relacionamento em Take Me Apart seria uma metáfora para a persistência na vida real, algo que soa como um clichê, uma vez que a história a dois dificilmente se aplica a uma figura de linguagem em termos sociais.
Ainda assim, Kelela revelou a nobreza de sua intenção em entrevista ao iHeart Radio:
“Eu estava pensando especificamente nas mulheres negras que estão em um momento em que são gradualmente oprimidas e operando em espaços onde não são apreciadas. É apenas uma mensagem a essas pessoas, para que possam sentir que vale a pena perseguir e persistir”.
O positivismo está na atitude, e lidar com isso tudo exige um processo de intensa aprendizagem, paciência e, acima de tudo, autoconhecimento.
Portanto, Take Me Apart é muito mais que a epopeia de um relacionamento pingue-pongue. É sobre usar forças, adquirir forças, cansar-se, seguir seu rumo… É sobre ser mulher, sobre ser negra, sobre ser forte e, principalmente, sobre não ser derrubada(o) pelas adversidades.
