
01 On Sight 02 Black Skinhead 03 I Am A God (Ft. God) 04 New Slaves (Ft. Frank Ocean) 05 Hold My Liquor (Ft. Chief Keef & Justin Vernon) 06 I’m In It 07 Blood On The Leaves 08 Guilt Trip (Ft. Kid Cudi) 09 Send It Up (Ft. King L)
10 Bound 2 (Ft. Charlie Wilson)
Gravadora: Def Jam
[rating:3]
Na adolescência, garotos que não se olham diariamente no espelho costumam encarar qualquer rapaz taxado de feio andando de mãos dadas com uma bela moça. Essa afronta esconde três possíveis sentimentos: inveja, com a justificativa de que o carinha ‘tem sorte’; admiração, por reconhecer não ter os mesmos dons que o ‘sortudo’; ou repulsa, geralmente por motivos mais complexos que vão do egoísmo à indiferença.
Com o passar dos anos, Kanye West erigiu sua obra mais ou menos como esse ‘carinha sortudo’. Você pode encará-lo como o bem-dotado que sabe como produzir a sua música; um cara bem cercado de companhias; ou um ególatra que se faz de incompreendido.
Construir essa imagem superficial tem sido o maior fiasco da carreira de West. Tudo começou quando ele achou que sua megalomania poderia ser levada a sério em My Beautiful Dark Twisted Fantasy (2010) – que convenceu surpreendentemente bem.
Não bastasse Barack Obama chamá-lo de ‘idiota’ após a famigerada reação no Grammy a favor de Beyoncé (e contra Taylor Swift), West criou uma barreira que ele julga impenetrável. E investiu tempo, dinheiro e batidas improváveis para cortinar argumentos atrozes como ‘eu sou deus’ na herege “I Am the God”, onde ele diz se confrontar com Jesus a partir de sua conta bancária.
Yeezus é um álbum soberbo, como tudo que Kanye West costuma fazer. Com batidas que vão do dancehall do Capleton (“I Am a God”) ao hino antirracista de “Strange Fruit” na voz de Nina Simone (em “Blood On the Leaves”), Kanye West chama uma gangue que inclui Rick Ross, Justin Vernon, Daft Punk, Frank Ocean, entre outros, para tentar convencer o ouvinte de que tem seu nome garantido no panteão artístico ao lado de Michael Jackson – sua eterna obsessão.
O lado ‘jackass’ de Kanye West continua mais evidente do que sempre mas, pelo menos, ele compensa com inovadoras formas de impor suas rimas.
“Black Skinhead”, por exemplo, se apropria da acidez das baterias para narrar uma baita transada com adjetivos espartanos: ‘baby, estamos vivendo o momento’.
Mais crua que a exacerbação eletrônica que toma conta das primeiras músicas, “New Slaves” cria uma atmosfera mais fiel ao sentido de punição. E West não tem medo de recorrer à autodepreciação – mas, ainda assim, manter-se superior: ‘Pra você ver, tem líderes e tem seguidores/Mas eu prefiro ser o pau do que o engolidor’.
Ao longo do disco, o que se vê é uma sucessão de argumentos que o colocam (ou tentam colocar) no ápice. Interpolações e batidas híbridas são uma espécie de adorno fantasioso com o impacto de um óasis. Então, você se depara com letras que falam de ‘Range Rover que quebram o seu Corolla’ (“Hold My Liquor”) ou dum ‘pau jamaicano’ de “Guilt Trip” sob um refrão chatérrimo entoado por KiD CuDi numa faixa que só se salva devido aos barulhos de lasers e referências a Star Wars e Chewbacca. Como não dar razão à Obama depois disso?
Kanye West ensaia a exposição de seus sentimentos em faixas como “Blood On the Leaves” e “Bound 2” mas, por se achar um deus ou algo que o valha, logo repreende sua sinceridade com mais doses de autoengrandecimento e frases pesadas que incluem expressões como ‘fuck hard’ ou ‘fuck them other niggas’.
Quarenta minutos sob rimas, batidas que seduzem por sua criatividade e adequadas participações são o suficiente para o rapper condensar a mensagem óbvia de ser um ‘Jesus na Terra’ de três formas: invejável, admirável ou repulsiva. Escolha um desses caminhos. Ou faça um ‘mix’. Ou dê o play sem pensar.
Só não vá se ajoelhar pra ele – não há pecado maior contra o bom senso.
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A seguir ouça na íntegra Yeezus, de Kanye West:
Melhores Faixas: “Black Skinhead”, “New Slaves”, “Blood On the Leaves”.
