01 You Know It’s About 02 Our Father 03 Jungle 04 Barring the Likeness 05 Nothing Is 06 Soap Box (ft. Roc Marci) 07 Peace Akhi 08 Knighthood 09 30 Pieces of Silver 10 I’m Ready

11 Off the Record

Gravadora: Iron Works
[rating:5]

O cavalo solitário na capa de The Night’s Gambit é elementar: a movimentação em L da peça no xadrez remete aos caminhos tortuosos das ruas, dura com quem é esperto e implacável com quem é ingênuo.

Em seu terceiro disco solo, Ka endossa a crueza de uma realidade enigmática. As ruas, cenário usual do rap, são descritas com simbolismo filosófico, religioso e empírico. Saber se movimentar, assim como no jogo de xadrez, é crucial para atingir o objetivo máximo: a sobrevivência.

O clima soturno das bases não nega que estamos diante de uma jornada que nos oferece reflexão sobre o que acontece nas ruas, com rara argúcia.

Os vocais são suavizados, pois Ka quer que entendamos a mensagem e não a sua contida agressividade. ‘Precisamos de conteúdo emocional’, diz em “You Know It’s About”.

Menções ao Pai Nosso (“Our Father”) e à traição de Judas (“30 Pieces of Silver”) mostram um rapper literato, que já leu a Bíblia de cabo a rabo. Ele cita pastores, pecados e ‘bíblia favelada como catálogo’, mas não se prende ao conteúdo religioso. A existência do Divino é, para ele, uma forma de redimir os erros cometidos na Terra.

The Night’s Gambit soa não apenas como a compilação de confissões, mas um diário que reflete a pressão das escolhas impostas pelas circunstâncias: ‘Uma respiração a menos/Ainda é uma vitória’, descreve em “Barring the Likeness”.

Ka rima como se a experiência fosse a sina natural de quem empenha-se para vencer sempre. Seu conselho mais assertivo é ‘mova-se desde pequeno’, como diz em “Jungle”, citando métodos de sobrevivência animal como espertos caminhos para enfrentar a subversão das ruas. ‘Os predadores logo se aproximam’.

Com essa realidade, sonhos não passam de ilusões. São impossíveis de atingir quando a turbulência que envolve a ingrata cadeia escassez-necessidade-correria-criminalidade dá um xeque-mate na imaginação. Em “Nothing Is”, a assertiva é dura: ‘O que era importante como criança/Não significa mais nada agora’.

Em “Peace Akhi”, um inteligente jogo entre rimas e movimentos de xadrez, Ka diz que o seu passado era um mero ‘tabuleiro’, como se a complexidade de seus pensamentos fosse adquirida da maneira mais dura possível. Com a inteligência em posse, o refrão de Ka merece a devida atenção: ‘Pistolas são as únicas peças que vejo/Aqui é uma guerra, mas ainda peço para os meus negros: ‘Paz Aqui’’.

Os mais de 40 anos do ex-membro do Natural Elements são condensados em uma seriedade inescapável em The Night’s Gambit. Ele soa tão focado – ao contrário dos ‘raps aleatórios’ que condena em “Peace Akhi” -, que suas jornadas individuais saem do circuito em apenas dois momentos: em “Soap Box” onde, com a participação de Roc Marci numa base space-funky em marcha lenta, cita Martin Luther King Jr. em contraponto aos discursos alienantes, que vêm de tempos em tempos.

O outro momento off está em “Off the Record”. Ka cita um total de 62 álbuns – incluindo Criminal Minded (Boogie Down Production), Dead Serious (Das EFX), Ready To Die (The Notorious B.I.G.), Licensed To Ill (Beastie Boys) – estabelecendo uma conexão tão bem amarrada que serve como uma história própria. ‘Eu fui feito com bagagem/Todos esses versos acalmaram meu aspecto selvagem’, justifica nos segundos finais.

Os álbuns mencionados em “Off the Record” são grandes joias, mas o que se sobressai em The Night’s Gambit é a habilidade de movimentar as peças certas no tabuleiro feroz das ruas.

Se a sobrevivência é o prêmio, a injustiça está intrínseca na complexidade dos versos de Ka.

Que o Juízo Final não chegue antes de seu devido reconhecimento.

***

A seguir ouça The Night’s Gambit, de Ka, na íntegra:

Melhores Faixas: ouça todas.