Gravadora: Island
Data de Lançamento: 10 de outubro de 2014
Há duas razões plausíveis para acreditar que Jessie Ware deva ficar presa à nada original cena alternativa britânica. Se alçou algum passo exuberante com a estreia Devotion (2012), o novo disco, Tough Love, mostra que a cantora não apenas está despreparada para rebimbar nas paradas radiofônicas; ainda lhe falta particularidade, emoção e, sobretudo, originalidade.
Basicamente tudo que se ouve em Tough Love é anos 1980 mal reprocessado. É um indie que tenta ser R&B, pegando carona no trip hop.
Jessie Ware canta bem, mas a produção estrepitosa de BenZel, Okumu, entre outros, foneceram inapropriadas cortinas musicais.
Invariavelmente, os acertos são quebrados com débeis andamentos musicais. À exceção de “Pieces”, a melhor do disco e única produzida por Emile Haynie, as canções se perdem na forçada tentativa de soar pop.
“Cruel” já nasce desgastada com uma composição que não sabe acompanhar a levadinha dançante proposta por Okumu. O refrão é idiota; os arranjos orquestrais ao fundo não mereciam tal apunhalada.
“Sweetest Song” se apoia em dois erros crassos: a letra rebarbativa, que pena para conquistar o ouvinte (a não ser que ele realmente se sinta atraído pela péssima maneira persuasiva empregada); e a falta de conexão estética entre o silêncio inicial e as camadas fragmentadas, que tornaram o R&B atual viciado e dependente de tais aparatos. É uma aparente vontade de tornar-se FKA twigs. Pior que copioso, o resultado é tedioso.
A faixa-título nos remonta à perene associação que liga Jessie Ware a Sade. Poderia ser trilha sonora de uma trip alone de um desses filmes superficiais de drama adolescente.
“You & I (Forever)” é modorrenta, remonta a uma Cat Power em seus momentos mais preguiçosos. A participação de Miguel, que se resume aos backings, é imperceptível.
“Kind of… Sometimes… Maybe” impressiona pela caretice. Momento quase limite de excluir o disco da biblioteca ou tascar a bolacha fora. Qualquer que seja a tentativa de Jessie Ware nesta faixa, tudo se resume ao desperdício. A letra é ruim – o que revela carência absurda de criatividade em sua obra. Não consegue convencer de qualquer sentimentalismo que seja – a não ser nos deixar irados com um prato cheio de obviedades e discursos baratos de historinhas de amor. ‘Tenho menos medo do escuro/Sem ideias brilhantes, deixo as luzes ligadas’, revela, o que nos leva a um pensamento maldoso instigado pela inabilidade da cantora sustentar o que tem em voz: há luz demais na obra de Jessie Ware, em detrimento de qualquer lampejo que seja de inventividade. Nem o pop pode com isso.
A despeito de Devotion, que impressionou pela projeção caleidoscópica de seu canto controlado, Tough Love teoriza a derrocada por uma verdade que a beleza de Jessie Ware não nos deixou enxergar: ela depende mais das batidas eletrônicas ao fundo, supostamente secundárias, que da potencialidade de seu canto. A obviedade de suas composições só nos dá vontade de empurrá-la ladeira abaixo.
