Gravadora: Mello Music Group
Data de Lançamento: 30 de março de 2018
Avaliação: 7.5/10
Pouco antes do mundo inteiro se chocar com o vídeo de Childish Gambino para “This is America”, a dupla Jean Grae e Quelle Chris tinha proposto uma narrativa sarcástica, em um tom propositalmente ‘leve’, que dá a entender que tudo à nossa volta corre bem, as coisas fluem… Não à toa, o disco chama-se Everything’s Fine.
O álbum é mediado por doses psicossomáticas de euforia. Trata-se da materialização sonora perfeita da teoria hipodérmica, estudo da comunicação da era pré-II Guerra que afirmava que a insistência de uma ideia, no meio midiático, deixava aos poucos os receptores das mensagens vulneráveis e ineptos.
O teórico Harold Lasswell defendeu que era preciso compreender a individualidade dos receptores das mensagens, algo que Grae e Chris levam em consideração em sua obra.
Ao trazer para as rimas referências da cultura popular de massa, como os personagens de Friends e menção ao filme do Planeta dos Macacos, por exemplo, a dupla sabe que põe em jogo um diálogo com pessoas que se interessam minimamente pelo que acontecem neste exato momento.
Everything’s Fine? Não é bem assim…
Entretanto, tal diálogo não é amigável. O sarcasmo é a forma de jogar na cara destrezas como preconceito racial e violência policial, dois dos principais temas que permeiam a produção de rap atual.
A abordagem é o X da questão de Everything’s Fine. A dupla começa simulando um talk show com convidados que afirmam que tudo vai bem, apesar das desgraças que aconteceram em suas vidas.
Como um todo, Jean Grae e Quelle Chris fazem questão de rememorar essa frase sarcástica, utilizando de um efeito reverso da repetição. A ideia é, sim, bater insistentemente na tecla de que as coisas precisam mudar e, se em um momento isso não passa de encheção de saco, por vários outros vemos o pleno exercício de montar o obscuro quebra-cabeças que forma nossa atual sociedade: globalizada, ultraconectada e que definitivamente decidiu tirar de debaixo do tapete seus preconceitos e suas ideologias retrógradas.
No entanto, esse exercício é feito de forma desestruturante, que ao mesmo tempo é o segredo da estética sonora do disco. Da assimilação jazzística de A Tribe Called Quest, passando pelo lo-fi defasado de Madvillain e Aesop Rock e trazendo um esquema inteligente de rimas que remonta a GZA, Everything’s Fine também tem um tanto de The Who Sell Out (1967) e, no clima combalido, um tanto de Sly and Family Stone na fase anos 1970.
As críticas sociais de Jean Grae e Quelle Chris
Também no meio dessa abordagem crítica há tons mais diretos, como em “Gold Purple Orange”, que diz diretamente que ‘pessoas que têm dinheiro tem uma carta na manga’ e que ‘toda alt-right é branca’, num uso de lógica discursiva que, além de sustentar o sarcasmo da obra, acentua o olhar da dupla para a realidade que os cerca – com foco, claro, nos Estados Unidos. (Alt-right é o termo que define a direita ultraconservadora que tem crescido nos EUA.)
“Temos um idiota de um presidente e, diante de nossos olhos, direitos de identidade racial, religiosa e de sexualidade estão dando passos para trás”, afirmou Quelle em texto de divulgação do álbum.
Apesar da preocupação dos rappers em geral se assemelharem com o ponto nevrálgico de Everything’s Fine, dificilmente você irá se deparar com uma obra parecida.
As subversões de linguagem, o claro andamento torto das rimas e das batidas e, principalmente, a estranha simbiose entre Jean Grae e Quelle Chris – infelizmente ainda é incomum um rapper e uma rapper dividirem os holofotes em uma canção, quem dirá um disco inteiro – chacoalham intensamente o cérebro do ouvinte. (Jean e Quelle ficaram noivos recentemente.)
Que as coisas não vão bem, todos sabemos. Mas, será que fazemos ideia de como dimensionar e reprocessar essa horda de horrores?
Talvez a confusão de Everything’s Fine, de certa forma, tenha um quê de esclarecedor.
