01 Holy Grail (ft. Justin Timberlake) 02 Picasso Baby 03 Tom Ford 04 Fuckwithmeyouknowigotit (ft. Rick Ross) 05 Oceans (ft. Frank Ocean) 06 F.U.T.W. 07 Somewhereinamerica 08 Crown 09 Heaven 10 Versus 11 Part II (On the Run) (ft. Beyoncé) 12 Beach is Better 13 BBC 14 Jay Z Blue 15 La Familia 16 Nickels and Dimes

17 Open Letter

Gravadora: Roc-A-Nation/Universal

Óbvio que Jay-Z é bem mais entertainer do que guardião de algum trono. Frases que o colocam no panteão (nesse quesito Kanye West o ajuda e muito) ganham outra perspectiva quando nos debatemos com números: dos 20 álbuns que lançou, 13 – incluindo este – chegaram ao topo das paradas Billboard, ultrapassando Elvis Presley e ficando atrás apenas dos Beatles. E qual o ponto que liga os três nomes além da música? São entertainers. E pouco importa se isso é bom ou ruim em cada caso.

De um entertainer devemos cobrar. E detratar nervosamente quando eles tentarem invadir nossa privacidade por meio de um aplicativo péssimo que levou aos extremos o jeito Zuckerberg de pensar negócios (já deu pra perceber que estamos falando do app da Samsung para comercializar o disco, né?).

Atendo-se a Magna Carta… Holy Grail, Jay-Z parece se comportar mais como um empresário conservador do que um músico inovador.

A primeira audição revela que ele tenta, de forma muito malsucedida, impelir o ‘boom’ de seus melhores discos com momentos difusos de sua carreira, que incluem crescimento profissional e um novo momento familiar após o nascimento de sua filha Blue Ivy Carter – que inspirou a louvável “Glory”.

Então, não entendemos: por que diabos ele ainda se incomoda com Miley Cyrus na piadinha sem graça de “Somewhereinamerica”, acha que alguém vai se convencer com a repetição enfadonha de Rick Ross em “Fuckwithmeyouknowigotit” ou faz uso do óbvio petulante num verso como ‘Não seja bom, nigga/Seja ótimo’ (não me diga…) na mediana “F.U.T.W.”?

Aí, vale a pena lembrar: Jay-Z tem medo de deixar seu lado entertainer de lado e abraçar um momento que parece muito interessante aos nossos olhos.

Ele dá indícios dessa nova fase a partir de “Part II (On the Run)” que, com a participação da mulher Beyoncé, evidencia um rapper que se renovou com a proximidade familiar: ‘Meu passado não é bonito/Minha senhora é/Minha Mercedes é’. Na canção, a diva pop faz muito bem ao se impor como estrela-guia de um músico que assume seus defeitos: ‘Diga-me por que eu tenho que extrair/O melhor de você’.

O interlúdio “Beach Is Better” é bem divertido, onde um Jay-Z espontâneo (numa batida desvanecedora) cita Halle Berry – mas lembra que o chicote pode estralar em casa. “BBC” remonta a uma espécie de churrasco com os amigos com as participações de Justin Timberlake, Nas, Swizz Beat… e Beyoncééé, claro.

Em “Jay Z Blue”, o cantor expõe um pouco da dureza de ser pai de família, quando uma pontinha do passado ainda o assombra. Seria o ápice de uma nova fase, que Magna Carta… já ofuscou faz tempo nas primeiras, ham…, 10 canções. Percebemos aí um cantor vulnerável, que não sabe lidar com a normalidade das coisas (‘essa merda de relacionamento é complicada’).

Isso vai desaguar em uma de suas melhores sucessões de verso em anos, que começa falando da ausência familiar e termina no seu clamor por responsabilidade. (Ouvindo tal desabafo, até dá vontade de se aventurar pelo seu íntimo na autobiografia Decoder.) E, depois do lamento, a felicidade que emana de “La Familia”, que parece ter sido gravada com um champagne em estúdio.

Agora, vamos ser bem sinceros: pra quê se apoiar num clichê absurdo como citar a música mais famigerada (ainda assim ótima, tá!) do R.E.M. (em “Heaven”) e encher os bolsos de Courtney Love por apenas umas linhas de Kurt Cobain num efeito musical esquisito (“Holy Grail”)?

Jay-Z tem medo de abraçar demais o novo momento e perder o que conquistou com o passado. Em sua visão (ou modelo de negócios, sei lá), ele acredita que é necessário retrabalhar o imaginário The Blueprint/bons momentos dos anos 1990/nostalgia forçada.

Deveria ele saber que o público também cresce com os artistas. Isso faz de Magna Carta… Holy Grail um grande e irreparável desperdício.

Melhores Faixas: “Part II (On the Run)”, “Jay-Z Blue”.