Gravadora: Wondaland/Bad Boy
Data de Lançamento: 18 de maio de 2010
Avaliação: 9.5/10
Demorei pra postar, mas não posso deixar batido. Quem acompanha as tendências da música atual, certamente já deve ter ouvido falar de Janelle Monáe, a grande promessa para a renovação do R&B e do soul.
Ao ouvir o primeiro álbum da cantora, The ArchAndroid, esqueça o que já foi produzido anteriormente. É diferente de tudo o que você já ouviu. E é isso que torna o trabalho tão bom, antecipadamente um dos melhores lançamentos do ano.
Sabe por quê? Pela diversidade de influências, pela ousadia sonora, pela ótima produção, pelo tema curioso.
The ArchAndroid: conceito
Aficionada por cinema, Janelle Monáe ambientou a personagem androide Cindy Mayweather em referência ao clássico da película muda Metropolis, de Fritz Lang. A afroandroide representa o convívio com o diferente, que a cantora acredita ser um dos grandes emblemas da modernidade. O distinto está entre nós, mas criamos uma aversão sobrenatural a ele que acabou gerando um conflito. Um conflito indolor. Um conflito que parece não existir, mas é real. E, em seu trabalho, a cantora argumenta que a androide pode ser qualquer um: um imigrante, um negro, um chinês…
Seria difícil não relacionar The ArchAndroid à sua biografia. Filha de uma faxineira e um caminhoneiro, aos 18 anos Janelle saiu do Kansas, sua cidade natal, para estudar teatro em Nova York. Algum tempo depois, começou a tocar canções de Roberta Flack e Stevie Wonder. Em uma destas apresentações, Big Boi, do Outkast, ficou fascinado com seu estilo único e a convidou para participar da faixa “Idlewild”.
Janelle vive dizendo que se sente um pouco fora do ninho porque canta R&B de forma diferente de outras divas. Gosta de Aretha Franklin, mas sabe que não tem habilidade vocal para tentar superá-la. Além do mais, suas interessantes influências contribuem – e muito – para suas canções.
Do surrealismo de Salvador Dali ao funk pulsante de James Brown, Janelle Monáe imprime sua vida pessoal em The ArchAndroid com faixas emblemáticas, como “Cold War”, a animada “TightRope” (em parceria com Big Boi) ou a instigante e psicodélica “Come Alive (The War of The Roses)”.
“Eu sempre quis trazer uma mensagem através da música por um ângulo diferente de uma mulher, uma mulher de pele negra”, afirmou Janelle ao site Okay Player. “Não somos monolíticas. Temos nossas próprias ideias. Eu tenho o direito de me deixar levar pela imaginação”.
Janelle Monáe: divisora de águas
E imaginação é o que não falta em The ArchAndroid. A androide Cindy está no ano de 2719 em uma grande cidade chamada Metropolis e acaba sendo perseguida depois de se apaixonar por um humano. E aqui pode-se traçar um paralelo ao Ziggy Stardust, de David Bowie: o espírito rock’n roll também cativa Cindy e, assim como Ziggy, as facetas da humanidade acabam excluindo-a, como se tivessem lhe negado a existência. (Segundo as primeiras notas de “The Chase Suite”, ela é uma androide “com uma proficiente bagagem de rock e alma de trabalho”.)
Usualmente vestida de preto e branco, Janelle Monáe busca referências sonoras psicodélicas, misturando Jimi Hendrix e Afrika Bambaataa de um modo pessoal. Alguns equivocados podem compará-la à Erykah Badu, mas suas experimentações fogem de qualquer estereótipo. Como se fosse Bowie trazendo suas ancestralidades à tona e condensando-as. Só que, em The ArchAndroid, estão elementos de música negra, algo intrínseco às raízes de Janelle.
Em outras palavras, o som é afrofuturístico. Um passo gigante na música que está par a par com a renovação musical de George Clinton, a androginia jazzística de Sun Ra ou até mesmo a inteligência de Chuck D.
Seria uma revolução impactante? Sem sombra de dúvidas! Nasce uma das maiores artistas deste século.
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