Gravadora: Polydor
Data de Lançamento: 6 de maio de 2016
Dezessete músicas para um disco só é coisa demais, e não por conta de um suposto cansaço que possa gerar, mas principalmente por conta da agilidade de nossos tempos.
A lapidação é parte importante de um trabalho. Claro, álbuns com diversas rasuras podem ser criativamente melhores que zilhões de outros que seguem o padrão de 10 músicas, mas a quantidade tem se tornado um peso levado cada vez mais em conta.
No caso de The Colour of Anything, 3º disco de James Blake, 17 é um número complicado de atingir por conta da predominância unilateral da melancolia.
Porque, criatividade mesmo, o disco exala.
Blake tem um cuidado estrutural com suas peças. Elas são curvilíneas, bem modeladas. Mas, quando se trata de detalhes internos, elas parecem apegadas demais a um simplismo desfigurado por quebras repetitivas (“Always”) ou efeitos toscos de voz (“My Willing Heart”).
Peguemos “Timeless”. As variações, por mais que sejam minimalistas, estão submetidas a uma graduação rítmica que permite bruscas trocas repetitivas.
Blake entende eletrônica, sabe respirá-la e trazê-la a uma expressão sentimental comparável ao que alguns vocalistas fazem com o R&B. Mas a vocalização ainda é um componente desajustado em suas obras.

Crítica: James Blake | Overgrown (2013)
Não é pela técnica. A mencionada “Timeless”, por exemplo, usa a voz como alerta para algo que ele sabe que acontece com urgência (tudo acontece com urgência, ora pois).
Mas “Put That Away and Talk to Me” se aplica a essa falha. A música supõe uma aproximação corpórea, justamente porque a falta de contato se põe como problemática de um relacionamento – não importa se seja amizade, paixão, enfim. Blake entrega o desespero a batidas fragmentárias, e em vez da canção reforçar um desejo, acaba gerando efeito contrário: cansaço. (Se recebesse algo parecido com essa canção como pedido de desculpa, recusaria na hora.)
Num disco em que os elementos dão ao cinza a mesma vivacidade pictográfica que outras cores levemente ‘quentes’ (verde e marrom), uma canção como “Waves Know Shores” tem seu perfeito encaixe. Ok, ponto pra estrutura. Mas, falta para aquilo que faz com que o ouvinte não troque de música: despertar interesse.
Incompatibilidades estéticas à parte, The Colour in Anything é até agora o melhor disco de James Blake.
Sem receio de soar nostálgico, ele encaixou muito bem o uso pop dos synths em “I Hope My Life (1-800 Mix)”, que cairia bem numa 2ª temporada de Stranger Things, e no ritmo levemente esticado das cordas em “Modern Soul”, exemplo de como a lentidão do ambient não precisa ser contraposta com vigor na voz. Nela, o andamento é tudo. É isso que James Blake faz de melhor.
Este é o disco em que a proximidade com o Bon Iver é maior – por isso, nada mais justo que chamar a banda de Justin Vernon em “I Need a Forest Fire”, um flerte com o post-rock nebuloso que compara nossa relação com a natureza com sentimentos humanos. Embora seja um ambient tranquilo, suas variações são dotadas de um senso exploratório que direciona o ouvinte a um soul gélido.
Claro, a canção seria melhor se fosse encarada como um dueto em que a alternância não soasse tão artificial.
Decerto que não haveria forma mais adequada de um resultado à lá James Blake, mas ele ainda é novo demais (27 anos) para pendurar assim algo tão importante para a eletrônica, R&B, minimal, indie, ou seja lá o que você ache que ele esteja fazendo. Sim, estou falando da p***a da voz.
