Gravadora: Third Man Records
Data de Lançamento: 23 de março de 2018
Avaliação: 7/10

A base de percepção construída em mais de 20 anos de carreira de Jack White vem das cordas.

Bom que seja assim, porque não dissociamos a imagem do operário dedicado dos riffs de “Seven Nation Army” à multiplicidade entremeada de cordas e percussões em “Connected by Love”, faixa que não só abre o recente Boarding House Reach, como já se impõe, facilmente, como uma das melhores coisas que o ex-White Stripes poderia nos oferecer.

Jack White é daqueles músicos megacentrados que precisam de um projeto solo para ir além de seus próprios limites. Sim, ele liderou White Stripes, Dead Weather e Racounteurs sob diferentes funções, mas foi com Blunderbuss (2012) e Lazaretto (2014) que sua personalidade extrapolou.

É o rock raiz século XXI, diriam os mais eufóricos, mas nem tudo se trata de devoção.

Boarding House Reach = subversão

Em seu 3º disco, White fez questão de encurtar o trajeto que leva diretamente à subversão, deixando uma mensagem bem direta em “Corporation”: ‘quem está comigo?

A resposta, pelo menos nessa canção, está nas estruturas: um tipo de Booker T & the MGs moderno com a poesia bagunçada de Captain Beefheart sobressaem a efeitos, gritinhos e batucadas.

E não pense que Jack foi longe demais. “Hypermisophoniac” é um avant-folk querendo ser um blues terrível (o melhor momento é o piano em continuum), e quem achava Jack ‘clássico’ demais vai se surpreender com a sonoridade circense de “Everything You’ve Ever Learned”, que dá um background furioso ao mais próximo que testemunharemos de um White entertainer.

Boarding House Reach funciona porque White dosa o que se esperaria dele com o que há de mais inevitável.

“Respect Commander” é um instrumental intergaláctico, mas os solos tortos de guitarra estão bem reconhecíveis. Se a poesia de “Ezmerelda Steals the Show” soa desconexa demais, “Over and Over and Over” prova que o rock explosivo que ele domina há um bom par de anos ainda tem força pop.

Jack White: excêntrico

Excentricidade sempre caminhou ao lado de Jack White; seus riffs e construções harmônicas não formaram sua unicidade de forma diferente.

Boarding House Reach, nesse caso, levou suas pretensões para campos distintos.

O rock era uma caixinha que estava prendendo-o, por isso ele conectou mais sua expertise a percussões, vocoders, piano, sintetizadores e até cuíca.

White busca o domínio da linguagem musical como um todo, e para quem achava que ele tava bem avançado, Boarding House Reach prova que ele tem um longo caminho a percorrer. O bom é que ele aprende rápido.

Leia também: Elephant (2003), de The White Stripes, na seção Grandes Álbuns