Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 9 de março de 2018
Avaliação: 8/10
‘Duro e pesado como a realidade’. Essa é a simbologia do tungstênio, material contido na caneta BIC que há muitos anos se destaca como a principal arma do rapper e poeta Renan Inquérito. ‘Tungstênio é resistência’, diz o cantor no monólogo que antecede “Barras de Ouro”, elencando uma penca de objetos que fazem parte do nosso cotidiano, do smartphone ao fiozinho da lâmpada.
Uma pesquisa rápida pela internet revela que o tungstênio é o material mais pesado que pode ser manipulado pelo ser humano, e o grupo Inquérito (formado por Renan, DJ Duh e Pop Black) faz questão de abrir um leque gigantesco de possibilidades poéticas.
“Escrevo como quem faz artesanato, com frases em retalhos, como montar um quebra-cabeças, cada palavra uma peça, até que as partes façam algum sentido”, revelou Renan na introdução de seu livro de poesias #PoucasPalavras, de 2011. Essa característica, claro, também está presente na forma de compor música.
Seu amplo conhecimento das ruas, aliado a uma admirável capacidade intelectual de conectar palavras, sentimentos e ideias, ganha ainda mais tônica com o peso das participações: de Mato Seco (“Pega a Visão”) a Zeca Baleiro (“Vitrines”), passando por Rashid (“Turbulência”) e pelas bem-vindas parcerias gringas com o cantor de fado português Luís Travassos (“Coração de Camarim”), o rapper angolano MCK (“Perfume da Colônia”) e a cantora neozelandesa LAWN (“Cafuné com Caneta”).
A dureza de Tungstênio
Inquérito leva a sério o peso do metal que dá título a seu disco. Com mais guitarras e tom mais agressivo ao falar de política, existe uma posição bem marcada: ‘Coxinhas não entendem, não, não consegue entender/Que nós já era esquerda bem antes do PT’, diz o rapper na pesadona “Artesanato Eletrônico 2.0”, que também critica o liberalismo que salvou os bancos da falência após a crise global de 2008.
A cada disco que lança, Inquérito ressurge ainda mais articulado. Portanto, não chega a ser uma surpresa Tungstênio soar tão incisivo logo de cara.
O que surpreende mesmo é a ampla construção de sentidos que o rapper trouxe para sua obra. Nas primeiras audições, as rimas parecem uma justificativa do termo escolhido para o título do disco – algo que se percebe na reflexiva “Barras de Ouro”.
A força do disco, porém, está naquilo que as rimas apontam, mas não revelam. Vem da resistência do tungstênio o insight para abordar com propriedade os tortuosos caminhos do rap em “Turbulência”, uma mensagem direta aos ‘versinhos magros’ da vertente mais pop do gênero.
Inquérito direciona essa crítica com rigor porque, para ele, rap é um estilo de vida em que Adoniran Barbosa se iguala a Wu-Tang Clan. ‘Sabe o que é rap puro? A escola ocupada pelos alunos’, defende o cantor em “Lição de Casa”, com backing vocal de Tulipa Ruiz.
Esse trecho me lembrou o já clássico “Mistério do Samba”, do Mundo Livre S/A, que diz que o gênero não é de lugar nenhum. A melhor resposta a esse assunto, na verdade, quem deu foi Candeia duas décadas antes, quando disse ‘Pra cantar samba/Não preciso de razão/Pois a razão/Está sempre com os dois lados’, em “Filosofia do Samba”.
O que isso quer dizer? Que, por mais que Inquérito tenha habilidade de sobra, não existe autoridade quando se fala de gênero. Ele argumenta que o hip hop é complexo demais para se justificar a uma cena musical, mas se aproxima da demagogia quando associa essa linha de raciocínio a uma ‘lição de casa’.
Inquérito contra a superficialidade do rap nacional
Há muito a se concordar com o que Inquérito diz, e isso vai além da ideologia. Sua coragem em demarcar posição não tira a sensatez de sua poesia afiada.
No entanto, a dureza de Tungstênio dificulta a possibilidade de um diálogo aberto.
E daí que tem gente com rimas ruins? O conservadorismo invadiu o rap, mas o rap necessariamente tem que estar em determinados polos? Detratar é preciso, mas qual o próximo passo?
Seria injusto cobrar de Inquérito o meio-termo ou a tentativa de pacificação em um gênero que tem se tornado cada vez mais tenso com a divergência de opiniões. Em poucas palavras, sabemos que Inquérito integra o lado mais esclarecido, mas será que ele dialoga com aqueles que não o são?
