Gravadora: Loma Vista
Data de Lançamento: 18 de março de 2016
Havia uma diferença crucial entre o início da carreira solo de Iggy Pop e seus primeiros discos com os Stooges.
Seu retorno à cena musical, em 1977, com clássicos como Lust For Life e The Idiot, ainda que diferentes entre si, tinham um lapidar atmosférico: riffs de guitarra bem controlados, correção vocal, justaposição.
Isso representou um contraponto à anarquia pré-punk instituída em The Stooges (1969) e em Fun House (1970). Culpado ou não, David Bowie sabia que a adequação ao público talvez ‘salvasse’ Iggy do limbo, portanto, o isolamento Iggy Pop & The Stooges, adquirido no barulhento (e excelente) Raw Power (1973), foi um ponto de partida. Era a despedida de uma era niilista considerada entre as mais importantes na história do rock para o início de uma descoberta de Iggy de seu próprio interior, levando em consideração os preceitos mercadológicos.
Quase quatro décadas depois, tudo mudou. Hoje Iggy é um careta obstinado com uma carreira que se expande ao terreno da moda e das artes.
Sua música passou por um processo lento de degradação ancorado por hits esdrúxulos, como “Candy” e “Blah Blah Blah”.
Disco fortalece a permanência de Iggy Pop dentro de uma cena que se estende por 40 anos – neste caso, bem mais pós que pré-punk
Os últimos discos de Iggy são marasmos estéticos que perderam o tom provocativo. O retorno com os Stooges, embora celebrado, também não rendeu: o arsenal de destruição já não condizia com o Iggy multitarefa que não deixa de exibir um porte atlético invejável para sua idade.
Então, Josh Homme teve uma ideia: por que não injetar novo frescor a ele? Pensando como um produtor, não haveria nome mais adequado: sua habilidade em criar e estruturar composições enfatizando os riffs (como se a cada pausa as baterias fossem 100% recarregadas) obviamente seria inspiradora para Iggy.
Nisso, vale deixar bem claro: não é a primeira vez que Iggy se depara com novas nuances sonoras (embora a ênfase nos riffs não represente nada de novo), como o gótico oitentista, em “Gardenia”, ou com baterias em marcha entre slides de guitarra (“In The Lobby”).
Em Post Pop Depression, o Iggy de outrora é revisitado por um Iggy absolutamente sereno.
Antes de ser uma entrega ao rock, o álbum é um reaproveitamento do potencial idôneo que, em vez de ter ficado mais evidente com o avançar da carreira, ficou preso demais às consagrações.
Talvez sem querer, Iggy sustentou isso com as tentativas de voltar com o Stooges – mal ajambrado em The Weirdness (2007) com Ron Asheton; e bem menos enérgico em Ready to Die (2013), com James Williamson.

Fun House: a obra-prima de The Stooges
Homme não tem a desenvoltura dos solos estilísticos de Asheton. Nesse sentido, ele se aproxima ao modo noisy e eletrificado das guitarras de Williamson: em “Vulture”, um psych-folk flamejante de agradar fãs da fase Mule Variations de Tom Waits, Homme desajusta as cordas e faz uma entrega ao blues diabólico. Dá até pra imaginar como seria se Robert Johnson aproveitasse as possibilidades dos amplificadores.
As distorções são onipresentes em Post Pop Depression. Por um lado ela inviabiliza que atmosferas lúgubres perdurem (se sentir falta disso, vá atrás de Après). Por outro, fortalecem a permanência de Iggy Pop dentro de uma cena que se estende por 40 anos – neste caso, bem mais pós que pré-punk.
“Break Into Your Heart” ser escolhida como a primeira faixa diz muita coisa: ‘quebre tudo‘, ‘pegue tudo‘. A adoção dos riffs é uma forma de enfatizar a mensagem destrutiva, mais eficaz até que as repetições do refrão. Perceba que ela adentra aos poucos na cabeça dos ouvintes pela insistência vocal e rítmica, uma prerrogativa indissociável da música pop.
A ironia com o título é tabulada logo de cara. No decorrer do disco, Iggy é posto a uma limitação harmônica ancorada no protagonismo das guitarras. Há poucos urros, poucas interjeições. Pode-se até questionar sua falta de vontade. Porque a liberdade, no caso de Iggy, tem um preço: a rejeição.
