Gravadora: Semopa
Data de Lançamento: 28 de outubro de 2016

Pense em Hugh Masekela mais ou menos como um Louis Armstrong.

Trompetista, espécie de ‘facilitador’ quando se trata de diálogo musical, mas bem mais marcante por sua voz – pelo menos é assim nos dias de hoje.

Técnicas e contextos musicais à parte, Masekela e Armstrong vivenciaram uma linha do tempo repleta de preconceitos, segregações e incertezas musicais.

Eles chegaram a se conhecer: por volta de 1963, quando havia se exilado da África do Sul em busca de seguir uma carreira musical, Masekela deparou-se com a cena jazzística efervescendo em Nova York. Viu Miles, Coltrane, Roach, mas o encontro mais marcante foi com Armstrong que, endossado pelo também trompetista Dizzy Gillespie, aconselhou: “Fixe em um estilo seu”. Pouco tempo depois, Trumpet Africaine (1963) foi lançado, e sua história começou a tomar novos contornos.

Mas, paremos por aí. A rasa comparação é apenas para dimensionar a importância de alguém ímpar demais para preencher prateleiras da world-music.

O tempo passou, e Masekela não parou nele. Uma audição atenta de seu novo disco, No Borders, revela o propósito: fala da riqueza transnacional, do choque estrangeiro, do entrecruzamento musical, possível apenas com a derrocada de todos os muros que separam pessoas, povos, culturas.

Nessas cinco décadas, Masekela não parou de tocar. Decidiu se empenhar em uma causa: aproveitar a globalização, da qual desfrutou para espalhar sua influência pelo mundo, para reforçar as características da música africana. Pelo globo inteiro, claro.

No Borders faz o trabalho de pegar elementos de várias expressões africanas pelo continente e torná-los globalmente mais acessíveis, cruzando com influências ocidentais

A ideia é pretensiosa, assim também como sua concretização. No Borders capta elementos da música do Togo, Gana e Congo (vide “Congo Women” e “KwaZulu”, um dos grandes destaques), até percorrer um tour imersivo pelas expressões populares e rítmicas do continente.

Dialetos da família linguística africana surgem nas canções. Tudo bem, poucos entenderão o que Masekela canta em “Shango”, orixá celebrado na Nigéria e em outros países caribenhos. Mas a pegada deixa bem claro que trata-se de um rito festivo, impulsionado por atabaques, cordas e metais que enfatizam sua importância espiritual.

A herança musical de jazzistas africanos renomados, como Fela Kuti e Mulatu Astatke, perpassam as 15 canções. Entretanto, No Borders faz o trabalho de pegar alguns desses elementos e torná-los globalmente mais acessíveis, cruzando com outras expressões ocidentais.

Em “Alright”, por exemplo, a forma com que o refrão é entoado lembra Ike Turner. Isso porque o pop também é importante adição nesse trajeto de Masekela. A participação de J’Something em “Heaven in You” dá um ar meio Dave Matthews Band. O dueto com a cantora Khanyo em “Tonight, Tonight, Tonight” é o resultado híbrido de variadas conjunturas musicais, exploradas separadamente em No Borders: tem solo de trompete, ritmo de afro-beat e forma de canto meio neo-soul.

“Não acredito em barreiras, porque não criamos elas”, disse Masekela em entrevista. Isso se aplica tanto à sua música, que se sente à vontade para agrupar, converger e assimilar as milhares de referências espalhadas pelo continente, como para entender as pessoas que estão distante de nós. Não é entrega à globalização; é perceber que a proximidade pode ser estimulada por nossas próprias ações.

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