
01 Condição Humana 02 Onde Estava Você 03 Cruzeiro do Sul 04 Tudo Que Eu Só Fiz Por Você 05 Moldura do Quadro Roubado 06 Oceano de Amor 07 Olhar Estrangeiro 08 Você Em Mim 09 Castelo do Reino
10 O Que Se Leva (Temor ao Tempo)
Gravadora: Coaxo do Sapo/Tratore
[rating:2.5]
Guilherme Arantes pode ser um desses compositores dos anos 1970 e 1980 que parecem relegados a tempos de outrora. Mas a grande força dele é o imaginário que suas melodias e, principalmente, sua voz deixaram por terem sido tocadas em novelas de sucesso como Que Rei Sou Eu? (com “Raça de Heróis”), a divertida Vamp (“Sob o Efeito de Um Olhar”) ou a já nostálgica Dancin’ Days (“Amanhã”).
Portanto, a primeira impressão que se tem ao rodar o 22º disco do compositor paulista que fincou morada na Bahia é que estamos diante do Canal Viva.
A faixa-título, que abre o disco com uma melodia toda oitentista, não nega o paralelo. Ele soa preocupado com ‘vaidade e luxo em vão/medos sempre iguais’, mas sua voz aveludada e frágil nos remete a algo do coração. É como se estivéssemos diante de uma novela da Glória Pires que traz um tema complexo como tráfico humano, mas cujo espetáculo está na trama amorosa.
“Onde Estava Você” tem em si toda a nostalgia do Canal Viva. O coro pop-safanão (‘la la la’) dos músicos Kassin, Adriano Cintra, Edgard Scandurra, Marcelo Jeneci, Thiago Pethit, Tiê e Tulipa Ruiz dão um ar de soberania a Guilherme. E isso soa mera pretensão ou uma risível vaidade: um coro de vozes desconhecidas teria o mesmo efeito, já que não há expressividade artística de nenhum deles ali.
Porém, não se pode tirar de Condição Humana o adjetivo de sincero. Guilherme Arantes mantém intacta sua proficiência vocal, uma das maiores qualidades de músicas tão inovadoras como “Loucos e Caretas” (1979) e “Planeta Água” (1981) garantirem ótima repercussão de público. E temos também como belos pontos as melodias de piano, tônicas que fortalecem a mensagem amorosa de “Oceano de Amor” e esperançosa de “Castelo do Reino”.
Numa entrevista à MTV, o compositor disse que prefere ídolos que, de alguma forma, subverteram o sistema. Ouvindo “Moldura do Quadro Roubado”, vemos a sinceridade de sua declaração: ‘Mil promessas de eleição/A favela então cresceu, explodiu/A escola não ensinou e faliu/E no hospital: a humilhação/E o povo acreditou/Na voz rouca do pastor/E acredita em qualquer pai que venda o seu baú da felicidade’. As guitarras de Luiz Sergio Carlini e Alexandre Blanc formam um caldo irascível, que correspondem com a força da composição – e temos aí uma das grandes músicas do ano.
“Olhar Estrangeiro”, com clara referência do folk protestante de Woody Goothrie, também é uma composição ‘preocupada’. Mas o andamento do disco é mais regido em baladas.
Apesar dos slaps meio regueiros, “Você em Mim” não surpreende; “Tudo Que Eu Só Fiz Por Você” remete àquele momento que o protagonista da novela global anda pelo calçadão com saudades da amada (quer dizer, talvez não mais, já que as trilhas noveleiras estacionaram na bossa nova); e a faixa de encerramento, “O Que Se Leva (Temor ao Tempo)” (com a participação de Marcelo Jeneci), em contrapartida é uma boa composição sobre o tempo.
E, já que falamos sobre o tempo, surge aquele dilema: estamos com saudade do quê quando sintonizamos o Canal Viva?
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A seguir ouça Condição Humana (Sobre o Tempo), de Guilherme Arantes, na íntegra:
Melhores Faixas: “Condição Humana”, “Moldura do Quadro Roubado”, “O Que Se Leva”.
