
Ghostface Killah – Apollo Kids




Ghostface Killah pode ser um dos rappers mais barulhentos da atualidade, mas é bem singelo quando o negócio é lançar um novo trabalho. Apollo Kids saiu no final de dezembro, quando as publicações estavam formando suas listas retrospectivas para resumir 365 dias de atividade musical em algumas poucas linhas. E isso, de certa forma, acaba ofuscando a promoção de seu trabalho – que não pode deixar de ser comentado.
O peso do outrora MC do Wu-Tang Clan é necessário em tempos como os nossos. As bases são obscuras e estão mais próximas do hip hop noventista do que a renovação sonora que vem suavizando o ritmo com o passar dos anos. Alguns convidados ajudam a manter esse tanque sonoro. Busta Rhymes consegue rimar pau a pau com a velocidade do rapper em “Superstar”, com um funk grooveado cheio de swing e, ao mesmo tempo, urgente e direto ao ponto.
Não causa surpresa nenhuma saber que a gravadora Def Jam está por trás de um disco como esse. Talvez Apollo Kids fosse melhor cotado se fosse lançado há 15 anos atrás, quando o hip hop ainda estava se firmando como um ritmo de resistência, não como mercadologia.
Os melhores momentos do álbum estão nas canções com mais influência do R&B e funk. Em parceria com os rappers Cappadona e Trife, “Black Tequila” é acentuada por guitarras rápidas como um trovão que cita o famoso Cinco de Mayo (que selou a vitória dos mexicanos sobre o exército francês em 1862, representando o orgulho de um povo que vivia dominado), o preconceito no Arizona e a alienação proporcionada por um Nintendo.
Ghostface Killah: “Black Tequila” (ft. Cappadona & Trife)
“In Tha Park” tem a célebre participação de BlackThought (The Roots) com uma base eletro-industrial obscura, que podia muito bem ser a trilha das madrugadas mais tenebrosas. O reencontro com a clássica formação do Wu-Tang está em “Troublemakers”, com Raekwon e Method Man. A canção tem potencial para se tornar o grande hino de rap do ano, com arranjos e estética que remontam aos áureos tempos de um dos principais grupos do gênero nos anos 90.
Por mais que mantenha uma trajetória estável no ritmo, Ghostface Killah mostra que as raízes não vão desprender de sua música nem tão cedo. É possível gravar um ótimo álbum, aos 40 anos, com os mesmos preceitos que fizeram o hip hop florescer.
Melhores faixas: “Superstar”, “Black Tequila”, “In Tha Park” e “Troublemakers”.
Abaixo, dá para escutar 10 das 12 canções de Apollo Kids (estão aleatórias, não é essa a ordem do álbum):
