Gravadora: Madlib Invazion
Data de Lançamento: 18 de março de 2014

Freddie Gibbs tem as rimas certas para o hype. Ele fala de adultério com a narrativa de um gangsta em “Deeper”, cai na brisa louca de Danny Brown em “High” e canta como um rapper dos anos 1990, com fluência e veracidade nas letras, em “Thuggin’”.

Madlib, por sua vez, é mais na dele. Não gosta de aparecer muito, mas boa parte da melhor produção do gênero pós-anos 2000 carrega seu nome. Além do estrondoso Madvillainy (2004) ao lado de MF DOOM, trabalhou também com músicos do porte de Talib Kweli e J Dilla. Das vertentes musicais que incorporou à sua produção, a mais latente vem do jazz.

Freddie não quis o hype; rejeitou contrato com diversas gravadoras, alegando que prefere a liberdade de falar o quê, quando e sobre quem quiser. Assim, Madlib serviu não apenas para lhe dar certa credibilidade no tão-falado ‘cenário underground’; serviu, melhor que ninguém, para garantir acidez à loquacidade do MC.

A acidez contida em Piñata é controlada: Earl Sweatshirt e Domo Genesis entram na linha da soul music em “Robes” (com sampler de Lenny White) e, na esteira do som do The Manhattans, Gibbs é abençoado com uma sonoridade R&B como se fazia com divindade nos anos 1960 – apesar de não entregar uma composição à altura.

Essa espécie de contradição entre sampler vs. rimas é algo com que Madlib está acostumado. Isso prova como sua força motora é essencial para engrandecer o trabalho de Gibbs que, por mais que se adquira relativo destaque nesse rol de sucka niggas (para citar o A Tribe Called Quest, influência que se espalha em Piñata), ainda tem bastante a amadurecer.

A grande referência de Gibbs vem das ruas, já que ele chegou a se envolver com o tráfico mesmo após ter assinado com a gravadora Young Jeezy (“tudo que faço será gangsta rap, baseado e orientado nas ruas… Sou de Gary, Indiana, e todo mundo que mora próximo daquela merda está próximo do nível de pobreza”, disse em entrevista à revista Rolling Stone).

Parte do comportamento antiestablishment está herdado nas rimas de Gibbs. E ele pode se sentir abençoado por conseguir trazer seus ensinamentos para o papel de forma madura. Como um Ka, reflete em “Broken” como a audácia e a obsessão pelo dinheiro o levou ao fracasso (‘Promessas vazias deixaram todos quebrados’). “Knicks” é um passeio nostálgico à adolescência do cantor antes de começar a vender maconha pela cidade. Aliás, é bem adequada a opção por convergir suavemente pianos e batidas em scratch.

O clima de Piñata é permeado pelo meio-termo. Faixas como “Scarface” e “Bomb” nasceram com o propósito de serem escutadas bem alto, mas é na levada de canções como “Harold’s” e na fluência em que vemos “Real” crescer que percebemos o quanto essa parceria é frutífera.

Provavelmente ela não deva ser comparável às grandes duplas do gênero, porque não é bem no diálogo que Madlib e Gibbs se acertam. Em suas próprias tramitações, mantendo suas próprias características, Piñata não recorre às superficialidades falsamente grandiosas para adquirir sua própria grandiosidade. Tudo corre de forma transversal; um bom disco de rap também é produzido e concebido dessa maneira.