Gravadora: Def Jam
Data de Lançamento: 17 de julho de 2012
Avaliação: 9.5/10
Inúmeras vezes Frank Ocean provou que não teme nada.
No lançamento da mixtape nostalgia ULTRA, ficou bravo com o esquema de divulgação da Def Jam e resolveu ele mesmo jogar o disco para download via Tumblr – disco em que enfatizava sentimentalismos delicados mesmo integrando a trupe beligerante do Odd Future; compôs músicas para ícones pop como Justin Bieber e Beyoncé sem se preocupar com os rumores; encarou e com grande maestria o fardo de participar de duas faixas dos hedonistas Kanye West e Jay-Z em Watch the Throne; e, como muitos já devem saber, recentemente revelou ao público sua paixão adolescente por um rapaz.
E essa coragem transporta-se facilmente para a música. channel ORANGE, seu primeiro disco de fato, convence logo na primeira audição. A voz de Frank Ocean carrega um charme rejuvenescedor para o R&B, que se encontrava quase em defasagem com o pop ultrapassado de Usher e as composições não mais tão convincentes assim de The-Dream e R. Kelly.
Ocean criou uma própria narrativa para falar de desilusões amorosas – como em “Thinkin’ About You”: ‘Vamos pegar a estrada/Antes que passe do colorido para o preto-e-branco‘, remetendo à eternidade de um sentimento que o cantor quer preservar em relação a alguém que ele ama (e que não sabemos o sexo).
O músico não recorre apenas aos sentimentos em suas faixas mais inspiradas, o que evidencia como o R&B é um gênero muito mais complexo do que os expoentes atuais nos fazem imaginar.
“Sweet Life” fala de como a realidade vai além da reprodução digital. Ele, adepto às ferramentas como iPhones, Tumblr e Twitter, também é skatista e rueiro. E manda esta mensagem àqueles que não conseguem interpretar a realidade: ‘Por que ver o mundo/Se temos a praia?‘, canta em um momento. ‘Você captura aquela brisa antes de ser sepultado/Mas mantém tal possibilidade de forma surreal, não importa o que acha‘.
Ali, ele também está imerso em como a situação econômica influenciou sua vida (‘minha TV não é HD e é tão real’, canta, ainda em “Sweet Life”). E assim prossegue com a vinheta de “Not Just Money” para, na sequência, “Super Rich Kids” justificar o vazio de tanta grana que, como consequência natural, semeia ‘amigos falsos’ e ‘problemas não -resolvidos’: “Um milhão, dois milhões/Milhares de outros que nunca terão”. Aqui, Earl Sweatshirt exemplifica o tal ‘garoto rico’ que suprime seu vazio com suas crônicas de posses e mais posses.
Ocean, pelo que se ouve, é um cara que se conhece e não se sente reprimido por externar suas influências corriqueiras – bem compreensíveis para um músico de 24 anos. nostalgia ULTRA poderia remeter a algo bem mais antigo do que aquela capa com uma BMW laranja da segunda metade dos anos 1990. E essa saudade de um período não tão distante assim ressurge logo no início do novo disco: a faixa introdutória “Start” gira nada menos que aquela inconfundível vinheta do PlayStation (videogame que, como muitos sabem, veio ao mercado em meados de 1995).
No entanto, ele está longe de ser limitado.
Em “Pyramids”, faixa de quase dez minutos que poderia se tornar uma chatice repetitiva, a dinâmica flutua entre ecos, uma bateria rítmica entoante e solos não creditados do músico John Mayer (o guitarrista também participa de “White”) no final da canção. Ocean descreve as implicâncias da beleza de uma Cleópatra moderna – que é uma prostituta – e como ela seduziu um cliente que quer a todo custo tirá-la desta vida.
Assim como o personagem, o músico está hipnotizado diante de tamanha volúpia.
A canção é melodramática, e Ocean, tal qual um Prince em seus melhores momentos, contextualiza a história ao nosso incorrigível cotidiano. Não há aceitação da ideia de levar uma prostituta pra casa; há, sim, a aplicação da teoria platônica que liga beleza à bondade. Qualquer um gostaria de ser essa pirâmide na qual a moderna Cleópatra trabalha. Pois da beleza vem o prazer. E o prazer é cura das irremediações da vida.
“Crack Rock” é reflexo de como a ‘pedra’ invadiu os lares. Teria tudo a ver em nossas maiores cidades, que já estão infectadas por esta triste realidade. Nela, Ocean faz trocadilhos com crack, quebrar pedras na janela, quebrar coisas em casa.
Numa levada de surpreender Al Green, “Lost” é adornada por viciantes guitarras rítmicas e sintetizadores que remetem a um eletroindie ensolarado. De tão poderosa, ofusca todas as produções eletrizadas e minimalistas que contaminaram o R&B.
“Monks” é acelerada por arranjos de corda funky e bateria jazzística vigorante de Matt Chamberlain. Já em “Pink Matter” Andre 3000 (Outkast) vem para acalmar os ânimos. A faixa é tácita, pois Ocean aparenta estar cansado de refletir sobre o que lhe cerca: ‘Você acha que meu cérebro foi feito para quê?/Será que é apenas um contâiner da mente?‘, questiona.
Mas, não adianta, a grande polêmica está em torno de “Bad Religion”: no trecho do refrão em que canta ‘nunca fiz ele me amar‘ poderia muito bem estar falando de um romance homossexual. Só que, na composição, Ocean também dá a entender que está questionando o deus de alguma religião.
Logo no início ele já deixa claro que está em uma conversa com um taxista e pede para ele ‘correr dos demônios’:
‘Bo, bo, você precisa de reza‘ – diz o taxista.
Frank Ocean responde: ‘Isso não me afeta‘. E continua: ‘Se me faz permanecer de joelhos/É uma religião má‘.
Putz, aí confundiu: ele está desesperado por um amor na vida real, por não ter uma religião, por ninguém aceitar seu ateísmo, ou pela possibilidade de ser homossexual?
As incertezas, o esperto modo de jogar as frases, trocar as palavras e falar sobre o que acontece com sua psiqué – ou com a psiqué dos personagens que cria – fazem de channel ORANGE um álbum que põe o R&B naquele panteão que sempre mereceu e há muito tempo atrás ostentou: entre os maiores de toda a música pop.
