Gravadora: Deck
Data de Lançamento: 13 de setembro de 2019
Avaliação: 9/10

Mais de 500 mulheres são agredidas por hora no Brasil, segundo levantamento do Datafolha. Nos últimos meses, o noticiário tem repetido o termo feminicídio numa tentativa de dar um panorama de como a violência contra a mulher ganhou uma proporção gigantesca.

Essa estatística, porém, não pode se tornar aceitação. E nenhuma cantora personificou tanto essa indignação quanto Elza Soares, que vociferou contra essa calamidade pública em seus dois últimos discos: A Mulher do Fim do Mundo (2015) e Deus é Mulher (2018).

Os índices estão longe de mudar, mas Elza decidiu que tinha que dar um foco mais abrangente. Vivemos tempos em que é preciso defender o óbvio, como a multiculturalidade, a floresta amazônica, o direito à educação, política de segurança e a transparência dos nossos governantes – para não entrar em temas mais absurdos, como desarmamento, a representatividade do Carnaval e até a quantidade de vezes que podemos cagar.

Por isso mesmo, Elza Soares decidiu cantar o Brasil. E não poderia escolher um título melhor: Planeta Fome. Fome de crescimento, fome de justiça, fome de igualdade, fome até de ter direito ao básico.

“A primeira pergunta que me fiz foi: ‘por que Planeta Fome?’”, questionou-se Lázaro Ramos no texto de divulgação. “A sua fome de reinvenção e manter-se relevante continua, e ela segue cantando todas as suas indignações e fazendo com que sua música seja um eterno grito em que sua voz rouca vai encantando e dizendo ao Brasil: ‘Tome mais, eu tenho sempre mais pra te dar’”.

Por que Planeta Fome

Diferentemente dos discos antecessores, Elza Soares preferiu se conectar com alguns dos músicos mais ativos da nossa geração, como BNegão, BaianaSystem, Orkestra Rumpilezz, Virginia Rodrigues, entre outros. Desta vez, ela conta com produção de Rafael Ramos, que trabalhou com Pitty, Titãs, entre outros.

O disco foi preparado durante a turnê de Deus é Mulher e se conecta com os primeiros anos de sua carreira, quando se deparou com Ary Barroso no programa “Calouros em Desfile”, da Rádio Tupi. Ao vê-la com traje simples, o radialista perguntou: “De que planeta você veio, minha filha?”. E ela respondeu: “Do mesmo planeta que o senhor, do planeta fome”.

“Estou com fome de saúde, de respeito, de cultura. Estamos vivendo um momento de saudade. O Brasil, que é um país tão acolhedor, hoje está encolhido. Eu não entendo isso. Então, estamos vivendo um momento de muita fome”, disse a cantora ao jornal Correio Braziliense.

Libertação e desconstrução

Elza Soares faz música identitária em mais de 60 anos de atividade, e esse aspecto tem se conectado cada vez mais com os problemas do Brasil.

Com Planeta Fome, sua condição de mulher detratora das mazelas já assume o gigantismo de sua persona, tão intensificada em seus últimos discos.

Trata-se de uma oposição robusta contra a marcha do atraso social que o país tem se tornado nos últimos três anos. Para isso, ela já inicia com um grito de resistência em “Libertação” e enumera as dualidades de um país acalorado e violento em “Brasis”, um exercício duro de autocrítica à nação.

As guitarras fritam no disco, mas a diferença é que ela se desvia da visceralidade dos álbuns anteriores para abraçar um som mais integralista, que une soul, rap e ragga numa cadência intencionalmente mais abrasileirada.

Mas o principal mérito de Planeta Fome é explicar a conexão entre o conservadorismo e a malandragem do brasileiro.

Nesse quesito, “Comportamento Geral”, composição de Gonzaguinha, cumpre muito bem esse papel de ligar meritocracia ao direito de tomar uma cerveja.

A seguinte, “Tradição” (Paulo Miklos e Sérgio Britto), liga a desobediência a um fator cultural nosso. O interessante é que, em tempos de guerras ideológicas, ela soa como um convite à própria desconstrução de nacionalismo e ideias preconcebidas: ‘Desagrave a ilusão e porque não/Do colorido da avenida/Se jogue nesse turbilhão‘.

Mas nem só de desilusão se faz Planeta Fome. Elza tenta se mostrar otimista em “País do Sonho” (Carlinhos Palhano e Chapinha da Vela), o clamor mais emocionante do disco: ‘Eu preciso encontrar um país/Onde ser solidário seja um ato gentil/Eu prometo que vou encontrar/E esse país vai chamar-se Brasil‘.

Com o poder de emoção do samba, as agruras das guitarras do rock, a cadência percussiva da música baiana e uma incrível força de vontade de transformar o Brasil, Elza Soares mais uma vez surpreende com o disco certo, na hora certa. Obrigado, Elza!

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