Gravadora: Circus/Natura Musical
Data de Lançamento: 1º de outubro de 2015
Avaliação: 9.5/10

A figura de Elza Soares é mais emblemática que a cantora Elza Soares. Muitos podem não conhecer seus maiores clássicos, mas a associam a um padrão feminino pouco discutido e muito estereotipado.

A biografia dela está tão associada à sua obra quanto a desigualdade está à historiografia do nosso país. Filha de lavadeira e operário, Elza nasceu em Padre Miguel, no Rio de Janeiro. Foi obrigada a casar aos 12 anos, e logo teve um filho. Nesse período, descobriu sua vocação para a música e, no programa de rádio de Ary Barroso, mostrou seu talento. Daí em diante, Elza Soares galgou uma carreira de sucesso: gravou discos clássicos, casou com Mané Garrincha, fez carreira nos Estados Unidos e na Europa e foi congratulada com a premiação ‘Melhor Cantora do Universo’, pela BBC, em 2000.

As durezas da vida, no entanto, não a abandonariam. Elza perdeu três (de sete) filhos: o primeiro morreu nos anos 1950, de fome; com 9 anos, Garrinchinha não sobreviveu a um acidente de carro, em 1986; e, neste ano, Gilson, 59 anos, faleceu após complicações de uma infecção urinária.

“Enquanto você tiver forças para caminhar você tem que continuar”, disse a cantora ao jornal El País. Uma vida dura, cheia de batalhas como a de Elza costuma despertar o lado mais emotivo dos corações de pedra. Portanto, ela ser a porta-voz de canções que falam de violência feminina, sexualidade despudorada (no bom sentido, óbvio) e malandragem transcende o termo ‘adequado’; Elza é, sem dúvidas, a cantora que mais tem propriedade para cantar, urrar e gerar discussões sobre o tema no universo musical.

Nova proposta musical para Elza

É justamente o que A Mulher do Fim do Mundo oferece. Suas 10 canções foram compostas pela turma responsável pela modernização sonora dos melhores discos que vêm de São Paulo: do pouco conhecido Douglas Germano (que escreve para Metá Metá) ao onipresente compositor Romulo Fróes, abrangendo, também, Kiko Dinucci, Rodrigo Campos, Celso Sim, Clima, Marcelo Cabral, Alice Coutinho, José Miguel Wisnik e o baterista Guilherme Kastrup, que produziu o álbum.

A força do perfil de Elza é reimaginada por esses compositores. Todos eles têm como característica comum o fato de estar conectados à cena urbana paulista.

Ao pôr Elza como epicentro, o discurso ganha proporções exponenciais. Na faixa-título, ela deixa o objetivo bem claro: ‘Eu só quero cantar, até o fim/La-la-la/La-la-la’. A rouquidão de sua voz, exausta, prova que foram muitas batalhas para que essa mulher chegasse onde chegou.

Ao se deparar com a violência doméstica, ela retruca, em “Maria da Vila Matilde”: ‘Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim’. Isso não só mostra que Elza pode usar a força bruta ao seu favor – não deixa de ser um estímulo para que as mulheres respondam, de alguma forma, a esse problema de gravidade enorme no País (uma em cada 5 mulheres já foram espancadas pelo marido). Elza indica que ligue 180, e não porque confundiu o número da polícia: este é o telefone da Central de Atendimento à Mulher, onde são catalogadas denúncias desse tipo.

Transfiguração e emoção à flor da pele

O samba de raiz de Elza é transfigurado, mas, ao mesmo tempo, preservado. Ora, dele também podem sair erupções de guitarra e metais, como exemplifica “Luz Vermelha”, onde diz que ‘tudo vai terminar num poço cheio de merda’. Esse é, também, o mote de “Pra Fuder”, canção de Dinucci que parece ter sido redigida num terreiro e finalizada após uma excelente experiência sexual. Elza Soares é a fera do sexo, uma explosão de libido que entra em transe: ‘Pernas abertas te prendo num beijo/Sufoco a sofreguidão/meu temporal me transforma em loba/Presa, você vai gemer’. Pra quê: ‘Pra fuder/ Pra fuder/ Pra fuder/ Pra fuder/ Pra fuder/ Pra fuder/ Pra fuder’.

Elza Soares chama os parceiros para dividir os vocais em três momentos. Em “Benedita”, o coautor Celso Sim evoca o lado masculino da personagem transexual da canção, num afro-rock que, do crescendo, chega ao caos, que simboliza a opinião dos preconceituosos que ‘jogam pedra/nessa hora’. O autor Rodrigo Campos mantém um diálogo leve com Elza em “Firmeza?!”, sugerindo o encontro do jovem da quebrada com a mulher experiente que conhece todos os percalços que ainda o esperam. “Dança” poetiza a morte da própria cantora, e tem no coautor Romulo Fróes o sereno trovador do apocalipse.

As fricções de cordas em “O Canal” têm protagonismo musical tão marcante quanto a voz de Elza. Adotando ar de cronista, ela canta as simbologias da composição de Rodrigo Campos com distanciamento, deixando que a elaborada sonoridade dê pistas de compreensão ao ouvinte. A partir daí, o tom de A Mulher do Fim do Mundo é mais perene, como se a própria vida, fulgurante no disco, trouxesse o silêncio e a reflexão com o seu avançar. Resta, então, a lembrança: ‘Levo minha mãe comigo/Pois deu-me seu próprio ser‘, diz, na última canção. Elza também é mãe, uma fortaleza de mãe. Sua súplica é, também, sua principal mensagem.

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