Gravadora: Deck
Data de Lançamento: 6 de setembro de 2018
Avaliação: 3.5/10
Ultrassom, álbum do paulista Edgar é poesia urgente afetada pelo universo binário da tecnologia.
As pulsações eletrônicas de certa forma atualizam os preceitos do manguebit – estreitados pela produção de Pupillo, baterista da Nação Zumbi, principal banda do movimento que surgiu nos anos 1990 em Recife.
Sórdida, essa poesia corrói porque descreve com gravidade cenas corriqueiras em nosso dia a dia: filmes com tiros, ansiedade, destruição do meio ambiente, enclausuramento.
A coesão de Edgar se materializa nas ruas, na conversa com os amigos ou na rotina do trabalho. Quanto a isso, ele não poupa descrições. Na funktrônica de “Felizes Eram os Golfinhos”, ataca aqueles que preferiram ficar ‘dormindo’ enquanto o Brasil ruma um caminho desesperador. A seguinte, “Go Pro”, põe as favelas como cenário de um terrível reality show de violência. ‘Novas guerras vão gerando novos foguetes’, repete o cantor, numa distopia que soa anestésica de tão recorrente.
Edgar: trovador pessimista
“Plástico”, uma das poucas faixas que aborda com embasamento crítico a forma com que a sociedade de consumo destrói o meio ambiente, é, também, um dos poucos exemplos em que vemos Edgar criar e manter um senso rítmico em seu canto.
Porque o incômodo vai muito além das temáticas; a voz do rapper não possui o mínimo senso de palatabilidade.
Edgar é um trovador das desgraças e, por mais que elementos como glitch, batidas saturadas e um tipo de esquizofrenia sonora que remete à rapidez dos avanços tecnológicos encorpem seu discurso pessimista, Ultrassom acaba, por fim, reforçando a nossa megaexposição a essa avalanche de informações.
Ele não tem obrigatoriedade alguma em nos fornecer resoluções ou alternativas, mas peca pelo excesso de hiper-realismo – quando não ultrapassa a ponto de chegar a uma metafísica cinzenta, como na robótica “Saúde Mecânica”, em que diz que ‘os sonhos são mais reais que aqui’, uma forma bastante difusa de abordar biotecnologia.
A concretude da poesia de Edgar parece um amontoado de cimentos desajustados, tijolos quebrados e arames farpados, como as mais bagunçadas obras de Nuno Ramos.
O desconforto é um risco automaticamente assumido, e o resultado é uma música crua e desestruturada que reflete o desespero de um indivíduo que vem com o objetivo de chocar num tipo paranoico de música cerebral. É música cantada que vocifera, denuncia, satiriza – mas acaba escoando, por não jogar com os elementos sonoros a seu favor para tornar as duras mensagens mais complexas – ou até mesmo palatáveis.
Ouvimos, ouvimos muito a inteligente construção de termos e frases de Edgar. Mas, para efeitos práticos, é difícil absorver quando o que se tem é uma expressão que funcionaria melhor como intervenção de uma obra artística em um museu contemporâneo. Porque um dos fatores mais efetivos da música é a repetição – e não dá vontade de escutar Ultrassom mais de uma vez.
Errata:
• A primeira versão do texto destacava que Ultrassom é o primeiro álbum de Edgar – informação que não é verdadeira. Ultrassom é a estreia de Edgar pela gravadora Deck e sucede o EP Protetora dos Bêbados e Mal Amados (2017)
