Gravadora: Tan Cressida/Columbia/Sony
Data de Lançamento: 30 de novembro de 2018
Avaliação: 9/10
Em seu último disco, I Don’t Like Shit I Don’t Go Outside (2015), o rapper Earl Sweatshirt expôs o quanto a depressão o afastava de um convívio social saudável. A coisa era tão séria, que ele decidiu que aquele seria seu último disco.
Felizmente, com o lançamento de Some Rap Songs, ele passa por um processo de terapia artística que denota um perfil até então desconhecido: a vontade de impor um autodesafio, criando rimas em esquemas complexos e diferentes padrões repetitivos que parecem gerar conforto ao músico a cada vez que apertamos o play.
O individual sempre se manteve um aspecto importante na obra de Earl, e Some Rap Songs não seria diferente. Ao escapar de conceitos óbvios em “Shattered Dreams” e confessar ‘passei o maior tempo da minha vida deprimido/A única coisa na minha vida era a morte’, em “Nowhere2go”, com loopings de tapes numa intersecção repetitiva, capta-se um tipo diferente de confessionário.
Earl Sweatshirt: perda e convivência
As confusões que rondam o espectro sonoro de Some Rap Songs são como a ebulição da mente de Earl, que não só compreende as improváveis variações rítmicas, como faz questão de martelar sobre elas.
Tudo faz parte de um universo que o rapper faz questão de compartilhar. Se “Nowhere2go” parece confusa, Earl só lamenta: “É o mais próximo que consegui para fazer a porra de um single”, disse o músico ao Beats One.
Ao longo do percurso, Earl teve mais uma perda: a do pai, o poeta sul-africano Keorapetse Kgositsile. Pouco antes do lançamento do disco, o rapper disse que teve uma relação “nada incomum de pessoas com seus pais”, mas que “literalmente, foi o fim da minha infância. Não ter mais esse momento me deixou com muito a descobrir sobre minha maldita personalidade”. (Ainda antes da morte do pai, em 3 de janeiro de 2018, ele havia criado uma mescla das conversas de Keorapetse com a sua mãe, registrada em “Playing Possum”.)
“Red Water” evoca a presença do pai de Earl em sonhos sangrentos: ‘sangue sobre meu pai/Esqueci outro sonho’, como se a lembrança atrapalhasse qualquer tipo de terapia jungiana. Sobre uma ideia musical apresentada em “Solace”, de 2015, ele mostra uma composição cíclica de fragmentos da infância (‘papai me chamava de chef‘) e a tentativa de assimilar a densidade emocional da perda.
Não que Earl tenha ‘superado’ tudo isso – na verdade, este é um vocábulo fora de seu dicionário. Domínio, talvez, seja algo mais próximo do que ele almeja, como aponta em “The Mint”, single com parceria de Navy Blue. As imagens associadas a algo obscuro devem reaparecer, e Earl se esforça para conviver com tudo isso.
No groove torto de “Ontheway!”, Earl mais uma vez exercita a autoanálise de forma efêmera. Suas canções tendem a tomar desvios, geralmente associados a imagens dark, um caminho orgânico do factual ao abstrato. Earl é um dos raros exemplos a compor a partir dessa técnica, e esse tipo de descontrole ganhou novas dimensões na proposta instrumental obtusa por trás de Some Rap Songs.
Pegue, por exemplo, “Loosie”: em menos de 1 minuto, ele filosofa sobre o abismo da vida, menciona o filme The Harder They Come e conclui uma ‘longa viagem, peneirando memórias sobre farsas estúpidas‘. Os fios condutores de Earl são imperceptíveis, quando não são atropelados pelas bases quebradas à lá Madvillainy (2004).
Dois minutos para cada canção é o suficiente para que o rapper bagunce a sua mente e consiga extirpá-lo de um mundo de pragmatismos, seja apresentando suas dores de forma anestesiada ou recriando paisagens que às vezes misturam o literal com o figurativo.
Leia também: Crítica do álbum Doris, de Earl Sweatshirt (2013)
