Gravadora: Tan Cressida/Columbia
Data de Lançamento: 23 de março de 2015

Nome mais pragmático não haveria para exemplificar o baque da sobriedade no terceiro disco de Earl Sweatshirt.

As melodias esfumaçadas e as rimas retardatárias e, ao mesmo tempo, genuínas, não saíram totalmente de cena.

A objetividade de Earl está mais em seu teor que na forma com que as evoca, tanto que, a partir de seu primeiro disco, passou-se a discutir se esse trejeito poderia ser encarado como inovação.

[pullquote]I Don’t Like Shit I Don’t Go Outside é intransponível em sua estrutura. É o casulo que Earl Sweatshirt cria para que crave a sua atenção[/pullquote]

No meio-termo entre os rappers Ka e Q-Tip, Sweatshirt dá gravidade ao casual com apoio de batidas que munem o nu-jazz de referências do industrial (citar quem produziu o disco).

A primeira faixa, “Huey”, tem na sonoridade do órgão o melhor aliado para nos arremessar imagens de um cenário caótico que ele parece conviver até hoje: ‘Sempre estive preso/E uma ambulância chegou’, canta, como se estivesse se libertando de um hospício. (Em entrevista à NPR, Earl disse que via I Don’t Like Shit I Don’t Go Outside como se fosse o primeiro álbum.)

“Faucet” é o desenvolvimento do dope-rap de Doris (2013): Earl aprimora sua observação e faz a transição do chapado para o contador de história que passou por pesadelos similares (‘não posso colocar o riso na tua cara‘).

Tão obscuras quanto a capa, as batidas fecham o ouvinte num microcosmo tácito e cheio de enigmas. Nos sentimos num labirinto, numa prisão fétida.

Cada verso de Earl indica maior confinamento. E, se ele ignora a pungência de Tyler ou a sensibilidade de Frank Ocean, as aberturas musicais que surgem ao final de “Grief”, ou parecem querer saltar em “Inside”, soam como brechas devidas para gerar reflexão ainda mais aprofundada sobre o que ele canta.

Sim, I Don’t Like Shit I Don’t Go Outside é intransponível em sua estrutura. É o casulo que Earl cria para que crave a sua atenção.

O fato do disco ter cerca de meia hora é mais uma de suas decisões acertadas. Jovem, com apenas 21 anos, sabe que não é necessário prender tanto o ouvinte para contar o que vê e o que sente.