Gravadora: Aftermath
Data de Lançamento: 7 de agosto de 2015
Avaliação: 8/10
Sim, você já pode dizer que não ouviu nenhum disco ruim de Dr. Dre. Após a sábia decisão de abandonar de vez o projeto Detox – que, a julgar por “I Need a Doctor”, tendia à ruína – o badalado produtor de hip hop teve cuidado ainda mais meticuloso em contar com a colaboração de seus protegidos.
Os já conhecidos Eminem, Snoop Dogg e, como todos imaginariam, Kendrick Lamar, surgem em seu 3º álbum oficial, Compton. Mas o que realmente impressionou é a quantidade de rappers e produtores ainda não consagrados que complementam o extenso rol do disco.
Cada canção é um thriller, e cada verso foi transfigurado a ponto de favorecer o rap enquanto andamento musical. Apesar disso, Compton é um disco motivado e comercializado pelas aparências
Do completo compositor, vocalista e baterista Anderson .Paak, passando pelos spots femininos de Asia Bryant e Candice Pillay aos produtores Dem Jointz e DJ Dahi, o álbum foge da prerrogativa de celebrar o old-school e explora os cromatismos melancólicos do rap atual – vide “It’s All On Me”.
Ora, mais do que nunca o rap está ancorado e dependente do produtor. Por isso mesmo, Compton resulta-se num opus criativo que engloba diversas personalidades estético-musicais.
Se pensarmos bem, caso Dre optasse apenas pelos rappers consagrados com quem já trabalhou, denotaria claro sinal de limitação. Porque um produtor, para ser o produtor, precisa estar cercado de músicos com diferentes conotações criativas, para juntar as peças e entregar o resultado final como se fosse a edição final dum filme, ou a composição final duma orquestra.
Logo, a primeira impressão ao ouvir Compton é que a junção e a totalidade domam o peso de cada uma de suas 15 faixas (com exceção da “Intro”, claro).
Observe como se dão as transações musicais e as reviravoltas temporais. Cada canção é um thriller, e cada verso foi transfigurado a ponto de favorecer o rap enquanto andamento musical (mais que compêndio de rimas e flows).
Importa – e muito – que Kendrick Lamar junte-se a Marsha Ambrosius e traga um sentido estranhamente catártico ao gangsta rap em “Genocide” e “Darkside/Gone” (este último, também com King Mez). E que as guitarras ecoem efusivamente para que Ice Cube e .Paak tragam a necessária modernidade ao West-Coast em “Issues”, e Xzbit e Sly Pyper excedam a sonoridade alarmante em “Loose Cannons” – cada enfoque musical é levado ao extremo, mas existe um toque de Midas por trás de tudo, dando sustentação à mitologia urbana que se cria ao redor de Dr. Dre desde que saiu do N.W.A., há mais de 20 anos (algo que certamente se fortificará com o filme Straight Outta Compton: A História do N.W.A., lançado neste ano).
E, quando se fala em imagem, Dr. Dre sabe muito bem como trabalhar. Compton é um disco motivado e comercializado pelas aparências. Não entenda como ‘incidente’ o fato de ter sido lançado pouco tempo depois de uma transação histórica com a venda do Beats para a Apple e, por conseguinte, o anúncio do serviço de streaming da marca, que possui forte influência dele. Por conta dessa jogada, ele trouxe mais de 2 milhões de assinantes ao Apple Music, além de garantir a audiência de seu programa na rádio Beats One soltando, vez ou outra, alguma faixa exclusiva dessas sessões.
Compton é um produto, mas é um produto de qualidade, que se baseia numa competência plural que reúne cenas, habilidades e simbologias capazes de aliar voracidade musical e adequação de mercado. Kanye West, Jay Z e até Chance the Rapper operam dessa maneira, porque a música também pode se beneficiar de negociatas.
Que fique claro: um homem com US$ 700 milhões na conta vislumbra outros alcances além do artístico.
