Gravadora: Hardly Art
Data de Lançamento: 2 de março de 2018
Avaliação: 9.5/10
A relação que tenho com discos acústicos é mais ou menos assim: eles vão criando ganchos que ligam memória e entrecruzam com outros discos semelhantes.
Quando isso acontece, é porque ele foi efetivo. E aí, meu camarada, segurem as audições sucessivas – algo que tem sido frequente desde que passei a ouvir Dick Stusso, um carinha de Oakland de 30 e poucos anos que fala sobre tomar umas, de observar a luxúria e, bom, se entediar.
A imagem que vem é a de um cara sentado na parte mais escura do boteco divagando em anotações rabiscadas de caderno, mas a memória mais tenra que tenho ao ouvir In Heaven, segundo disco do dito cujo, vem de conexões musicais. De Simple Songs, de Jim O’Rourke. De Marc Bolan. Beck acústico, Lou Reed em seu wild side, quem sabe até um pouco de Roy Orbison.
Dick Stusso: velho blues de cão de caça
Seja como for, a primeira referência que o compositor nos joga, no texto de divulgação, é Bonnie Raitt, considerando-a o melhor exemplo de cantora do “velho blues de cão de caça”, principalmente no clássico “Nick of Time”, exemplo mais “lúcido e intemporal” desse estilo, nas palavras do próprio músico.
Existe, sim, uma semelhança do clássico de Bonnie com algo que Dick tenha feito – talvez no tom de voz que impõe em temas como “Well Acquainted”, que abre o disco.
Mas aí entram os solos de guitarra totalmente espaçados, gerando maior profundidade à letra… E a entrega é imediata.
Caso ainda não se sinta convencido, vá direto em “Modern Music”, em que Dick afirma explicitamente ter se inspirado em T. Rex. A primeira audição te deixará com vontade de ouvir Electric Warrior (1971). A partir da segunda, meu caro, você vai perceber a existência de um mistério que precisa ser resolvido. E esse mistério não vai se dissipar enquanto você não der o play umas dezenas de vezes na mesma música.
In Heaven: folk-blues-rock versátil
Para um disco de apenas 29 minutos e 10 canções, In Heaven até que é bem versátil.
“The Bullshit Century Pt. 1” é um country-blues com notas soltas de piano intercalando com efeitos fantasmagóricos, até que os acordes de violão surgem com repentina grandiosidade.
A curta “Addendum” é um blues sincopado – e empoeirado – que certamente fascinaria Jack White e Neil Young (que, aliás, precisam conhecer Stusso). “Phasing Out” se arrasta como um psych-folk extraído de Morning Phase (2014).
Daí pro fim, o álbum se torna ainda mais denso – o que, neste caso, pode ser algo positivo em termos de qualidade musical.
“Terror Management” é um tipo de conversa existencial de Stusso com Deus. “The Big Commercial Car Payout” já registra interferência do ser lá debaixo, levando o cantor a declarar: ‘Já não importa mais‘.
Tá, calma lá. De certa forma existe um final feliz porque, olha só, a última canção chama-se “In Heaven” e tem uma levadinha otimista, como se Stusso estivesse unindo-se aos anjos.
Que bom que o disco trata-se de uma autoficção e temos ele aqui presente, na vida real, pronto para nos fazer refletir sobre o que é viver e ampliar nosso repertório de memórias afetivas. Os discos acústicos que estão por vir não serão mais os mesmos. Porque, ao encará-los, muito provavelmente lembrarei de In Heaven como uma base, talvez até um modelo a ser atingido.
Leia também: Crítica do disco Simple Songs (2015), de Jim O’Rourke
