01 The Next Day 02 Dirty Boys 03 The Stars (Are Out Tonight) 04 Love Is Lost 05 Where Are We Now 06 Valentine’s Day 07 If You Can See Me 08 I’d Rather Be High 09 Boss Of Me 10 Dancing Out In Space 11 How Does The Grass Grow 12 (You Will) Set The World On Fire 13 You Feel So Lonely You Could Die

14 Heat

Gravadora: ISO

De todas as possíveis abordagens sobre o novo disco de David Bowie, uma se sobressai: ele continua criativo.

Em poucas palavras, The Next Day é o álbum que melhor comprova seu lado camaleônico. É um mix de tudo o que o camaleão fez no auge dos anos 70 e 80.

Ali tem o David dançante de Let’s Dance (fala se “(You Will) Set the World On Fire” não é típico de quem fez um “Cat People”?), o David flertando com a música negra de Station To Station (“Dirty Boys”, uma das melhores do álbum) e até o David fazendo uma breve revisita à trilogia de Berlim, possível de ouvir em “Love is Lost”.

Por mais que seja um exercício instigante identificar as fases de Bowie, um dos grandes méritos do disco é constatar que o músico continua soando rejuvenescedor. Isso ele sabe, e não deve ligar muito em inserir um pequeno deslize ou outro, como a desnecessária “Valentine’s Day” ou a melancólica “Where Are We Now?” – que preferiria não associar ao lampejo de genialidade que resultou numa “Life On Mars?” (Hunky Dory, 1971) ou “Rock’n Roll Suicide” (The Rise and Fall of Ziggy Stardust…, 1972).

Como primeira amostra de novo disco, “Where Are We Now?” era tão suspeita que chegou a me causar temor.

Felizmente, o espanto é dissipado logo nos primeiros riffs de guitarra da faixa-título, que abre o disco.

“The Stars (Are Out Tonight)” é anos 70 até o osso, com guitarras abertas e levada ágil no violão que soa eficaz a um artista que um dia foi Ziggy Stardust. É como se ele tivesse olhado para o céu num clima nostálgico à noite e rememorasse, absorto em nostalgia, os primeiros passos do estrelato com o personagem.

Em toda a sua carreira, David Bowie apropriou de elementos musicais de outros artistas (Iggy Pop, Lou Reed, Rolling Stones e até Thelonious Monk) para recriá-los em seus discos. Isso ele fez de forma magistral. Mas em The Next Day o que se vê é um artista se apropriando do que ele próprio já fez. É a mimese da mimese. Similar a um Andy Warhol que colocasse numa mesma obra o retrato de Marilyn Monroe, as latas Campbell e as experimentações com o The Velvet Underground.

Numa época em que se recorre aos exageros para encontrar reinvenções estéticas, David Bowie sabe como manejar. Todas as 14 canções aqui encontradas são campos sonoros já penetrados nos melhores momentos de sua carreira.

E é nesse passear que você vai se deleitar com o seu intacto potencial pop (“I’d Rather Be High”, onde diz preferir se chapar do que ‘treinar jovens’), se encantar com a habilidade ainda latente de dialogar de forma magistral com a música negra (“Boss of Me”, uma das músicas do ano) e ainda ceder um tempinho para suas incursões mais sombrias – caso da faixa de encerramento, “Heat”, onde o cantor forja explicitamente o estranho Scott Walker, a quem Bowie já declarou ser fã desde os tempos com os Walker Brothers.

Dizer que The Next Day é um disco essencial na obra de David Bowie talvez soe precoce demais. O melhor é identificar o novo trabalho como um convite à sua extensa e necessária obra. O próprio ‘Heroes’ (1977) já desfigurado na capa é um bom caminho para começar.

Melhores Faixas: “Dirty Boys”, “The Stars (Are Out Tonight)”, “Boss Of Me”.