Gravadora: ISO/RCA/Columbia
Data de Lançamento: 8 de janeiro de 2016

O que tem causado mais intriga nos últimos meses não é o anúncio oficial de David Bowie de que ★ Blackstar seria seu álbum “mais estranho já lançado”. Ou que To Pimp a Butterfly (2015) seria uma influência.

Difícil mesmo é aceitar os rumores de que o Camaleão se aposentou de vez dos palcos, por mais que tenha motivos para isso.

Deixar de fazer turnês pode ser um detalhe na obra do britânico que completa hoje 69 anos, mas nos leva a questões correlatas ao disco: se ele não foi concebido para os palcos, como absorver o que ele tem a nos apresentar?

Reclusão permite mais ousadia, e esse é um ensinamento que Bowie captou muito bem de Scott Walker, mais que um ídolo, uma influência, como se pode constatar aqui. (Neste caso, imagine mais um Climate of Hunter repensando por uma orquestra europeia de jazz.)

O saxofone de Donny McCaslin, famoso por seu trabalho com Maria Schneider, é tão protagonista quanto os riffs de Gerry Leonard no anterior The Next Day (2013). Como ele já nos mostrou em “‘Tis a Pity She Was a Whore”, o arremedo jazzístico encapsula a eletrônica percussiva do LCD Soundsystem (importante notar que James Murphy participa dela). McCaslin delineia sua passagem com entrecortes imagéticos que dão vida ao que parecia completamente vazio no clipe de “Blackstar”.

A musicalidade não chega a ser surpreendente: a atmosfera é lúgubre demais para enfatizar como o extenso casting de músicos realmente contribui

As imagens thrash que renderam um ar polêmico ao clipe da faixa-título pouco revelam o que Bowie nos entrega. Resumidamente, Blackstar é apenas um álbum com mais enfoque melancólico, baseado em referências mais avant-garde que os discos ‘roqueiros’ de sua discografia.

Se houvesse uma prateleira só com discos de Bowie, Blackstar inequivocamente estaria ao lado de Station to Station (1976) ou ‘Heroes’ (1977), mas apenas por conta dum atrativo melancólico (quase excessivo, por sinal). As semelhanças com o que produziu na considerada Trilogia de Berlim, porém, não passam disso. É que Blackstar criptografa de forma diferente suas mensagens.

Antes as drogas, as alucinações e uma sucessão estranha de imagens interferiam na contextualização dos discos do final dos anos 1970. Se for para estabelecer uma analogia, então, Heathen (2002) se encaixa melhor, por enganar uma possível investida futurista com canções abstratas que falam mais do hoje que do amanhã (“Girl Loves Me” é o “I’ve Been Waiting For You” de 14 anos atrás).

Toda discografia comentada e reavaliada de David Bowie

“Lazarus” reconta de forma diferente a passagem bíblica em que Jesus o ressuscita dos mortos, para provar que os pobres têm salvação. ‘Não tenha nada a perder‘, suspira Bowie. Ele conta a jornada ao Paraíso como se ele, assim como qualquer um, pudesse servir de exemplo como Lázaro: ‘Ah, eu serei livre/Assim como aquele pássaro azul‘.

Se Bowie realmente queria criar algo diferente dos 24 discos anteriores, conseguiu com êxito. A musicalidade não chega a ser surpreendente: a atmosfera é lúgubre demais para enfatizar como o extenso casting de músicos realmente contribui. “Dollar Days”, por exemplo, poderia ser encaixada em qualquer disco do Camaleão dos anos 1990 (Outside talvez) e, se “Sue (Or in a Season of Crime)” consegue unir o art-rock com arranjos sofisticados de jazz, não esqueçamos que foi a bandleader Maria Schneider quem abriu este caminho ao por sua orquestra à disposição quando a canção foi revelada pela primeira vez, em 2014, como abertura do box set Nothing Has Changed.

Selecionar apenas 7 faixas para o disco foi um acerto louvável, por conta do excesso de densidade. Blackstar não é ruim, mas enche o saco em poucas audições. A ousadia é iminente, mas mesmo nessa ousadia Bowie não ultrapassa nenhum limite que não tenha defrontado anteriormente. Dos sussurros borrados da faixa-título à repetição alienista de “I Can’t Give You Everything”, Bowie faz muita coisa, mas não consegue cumprir o básico: proporcionar uma audição agradável de sua música.